Um Casamento Diferente
Timely Matrimonio - Sabrina Noivas 24
Kasey Michaels
 
Suzy Harper: 1 noiva muito especial. "Encontrar 1 homem nos dias de hoje no  fcil. Ainda mais 1 homem lindo, vindo diretamente do sculo 19. Quando isso acontece, o negcio  aproveitar. Alm de solteiro, Harry Wilde precisa urgentemente de 1 esposa que o ajude a sobreviver nesse mundo moderno. No, no d para abandonar 1 homem como Harry!"
Harry Wilde: 1 noivo muito diferente. "Ser 1 viajante do tempo  1 choque para qualquer pessoa! Um casamento inesperado com Suzy Harper, ento ... algo totalmente inimaginvel! Suzy  impossvel:  1 mulher que fala sem que lhe seja permitido e veste-se de maneira muito ousada! Mas, apesar de tudo, essa mulher atingiu em cheio meu corao. Ser que 1 dia terei de abandon-la?"

Digitalizao e Correo: Nina
Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1995
Publio original: 1994
Gnero: Romance contemporneo 
Estado da Obra: Corrigida

Srie Inesperado
Ordem	Ttulo	Ebooks	Date
1	His Chariot Awaits
	Feb-1990

2	Romeo in the Rain
	Sep-1990

3	Sydney's Folly
	Dec-1991

4	Timely Matrimony
Sabrina Noivas 24 - Um Casamento Diferente	Sep-1994


Srie Casamentos Precipitados (Hasty Weddings)
Autor	Ttulo	Ebooks	Date
Jayne Addison	Temporary Groom
	Sep-1994

Lauryn Chandler	Oh, Baby!
	Sep-1994

Cathie Linz	One of a Kind Marriage
Sabrina Noivas 27 - Profisso Noiva	Sep-1994

Kasey Michaels	Timely Matrimony
Sabrina Noivas 24 -
Um Casamento Diferente	Sep-1994

Anne Peters	McCullough's Bride
	Sep-1994

Carolyn Zane	Wife in Name Only
	Sep-1994



NOTA

Lista de verificao da esposa perfeita para Harry Wilde.

Sua noiva:

1.	Nunca danaria com o mesmo cavalheiro mais do que duas vezes em uma noite.
2.	Cuidadosamente esconderia os tornozelos ao subir em uma carruagem.
3.	Nem pensaria em consentir que palavras como "pernas" e "sexo" passassem por seus lbios.
4.	Falaria apenas quando fosse indagada.
5.	Nunca se dignaria a dar opinio sobre algum tema discutvel.
6.	No falaria jamais sobre poltica e economia.
7.	Adiaria tudo em favor do marido.
8.	Seria de idade razovel  certamente no mais velha do que 20 anos.
E ento Harry Wilde encontrou Suzy Harper...
PRLOGO
H trs dia e trs noite o Pegasus estava sendo castigado por aquela tempesta de final de vero. Mas a bordo do navio, no havia nada que os marinheiros pudessem fazer. Apesar da tempestade o Pegasus continuava seguindo a sua rota para Nova Jersey e, na certa, para um naufrgio iminente.
Aqueles homens, todos acostumados  inconstncia dos mares, estavam silentes diante da ameaa da morte.
No existia nenhum porto pelas proximidades para onde pudessem se dirigir e, se aquela tempestade no passasse logo, acabariam virando comida para os peixes.
De repente aconteceu! De repente, sem que ningum esperasse a tempestade parou. No devagar, como era de se esperar. Mas de um momento para o outro! Num instante o cu estava escuro com o vento e a chuva jogando o Pegasus ameaadoramente, no outro a tempestade tinha parado.
O mar, antes to violento, agora estava calmo, e o sol comeava a raiar no horizonte.
	Vou para o convs  Harry disse aos seus companheiros.
	No faa isso, filho  um dos marinheiros mais velhos o aconselhou!  J ouvi contar sobre tempestades como essa. Ela no passou.  o Olho\ Logo estar de volta.
Harry, jogando para trs os seus longos cabelos loiros, sorriu e disse:.
	Mesmo assim vou dar uma olhada no que est acontecendo l fora e conhecer o Olho.
	Cuidado,  muito perigoso. Muitas coisas estranhas acon tecem no mar.
	Ficar  aqui tambm e muito perigoso, meu bom amigo. No se preocupe. Vou l em cima dar uma olhada e logo estou de volta.
Harry saiu do poro do navio, foi para o convs e viu o que lhe pareceu uma ilha com uma belssima praia e uma floresta de pinheiros. A cena era muito bonita: num cu azul, o sol j brilhava soberano e muitos pssaros faziam sua algazarra matinal.
Harry ficou apreciando a paisagem romntica que tinha diante dos olhos, sem e dar conta que sobre a sua cabea um homem tentava consertar o mastro principal.
 Saia da! Saia da!  o homem gritou.
Harry, assustado olhou para cima. O homem continuava pedindo-lhe que sasse do local onde estava. Mas como com uma tempestade como aquela que acabara de passar, j tinha um homem consertando um mostro? Harry, que no era marinheiro e estava naquele navio h um pouco mais de dois meses apenas porque gostava de aventuras, no sabia responder quela pergunta. E foi neste instante que algo caiu l de cima sobre a cabea dele. Para Harry, o dia ensolarado de repente se transformou num noite escura e ele no viu mais nada.
Capitulo I

Aturdida com o locutor que falava sem parar, Suzy Harper desligou o rdio-relgio e voltou a recostar a cabea no travesseiro.
Na certa ela estava bem confusa. A prova disso era ter colocado o rdio-relgio para despertar s cinco e meia. Tudo por culpa daquela tempestade que durava trs dias que a mantivera presa ali naquela casa. Outro motivo que deixava Suzy certa que estava muito confusa era a vontade que tinha de sair pela praia  procura de pedaos de maneira para a sra. OConnell.
Suzy fechou os olhos. Coitada da sra. O'Connell... A mulher parecia to triste quando lhe mostrara sua coleo de arte, isso caso se pudesse chamar de arte inmeros pedaos de madeira recobertos por flores de plstico e conchas.
Mas a vizinha e Suzy, obviamente gostava muito desse passatempo. Logo pela manh a mulher adorava ficar vasculhando a praia. De acordo com ela, o mar sempre lhe trazia grandes surpresas. E essas grandes surpresas eram pedaos de madeira de tamanhos e formas inimaginveis. E tudo precisava ser recolhido bem cedo, antes que o mar retirasse da praia o que l havia deixado.
	Eu sempre facilito a minha vida  Suzy disse se espreguiando.  Da prxima vez que prometer algo a algum preciso me lembrar que detesto acordar to cedo.
Suzy olhou para o rdio e lembrou-se do que Arnie, o locutor, estava dizendo quando ela acordara.
	Onde ele consegue arrumar tanto assunto, tanta disposio s cinco e meia da manh?
Devagar, Suzy tirou uma das pernas de sob o lenol e tocou o tapete que Wilbur Langley havia lhe trazido de presente na ltima viagem que fizera ao Taiti.
	O tapete  macio, mas a minha cama  muito mais.  Ela voltou a colocar a perna sob o lenol e disse se repreendendo: 	Vamos, Suzy Harper. No seja assim to preguiosa. Faa exatamente o que tinha se proposto. Afinal, a vida  bela e acordar s cinco e meia da manh no  uma grande tragdia. Vamos, abra os olhos e encare a vida. No seja covarde!  Mais uma vez ela se espreguiou.  Mas eu sou uma covarde! Uma grande covarde! Estava tendo um sonho to bonito... A o Arnie me acorda falando sobre gorilas, patos... Ser que era isso mesmo que aquele locutor maluco estava falando? No sei... S sei que preciso me levantar! E vai ser agora!  Ao pronunciar a ltima palavra, Suzy deu um pulo da cama e se aproximou da janela.
	Cada dia me surpreendo mais comigo mesmo. Ontem tinha certeza que a tempestade ia passar, viu Baro?
Baro era um gato de cinco anos.
	Foi por isso que coloquei esse maldito despertador to cedo. E olha l, amigo! O sol est brilhando e a praia est repleta de objetos: latas, garrafas, um tnis e muitos outros produtos dessa humanidade que se acha maravilhosa. Quando  que as pessoas vo aprender que precisam se preocupar com o meio ambiente?
	Suzy olhou para o gato que estava sobre um tapete.  Baro? Por que voc no fala comigo? Olha l: tambm tem dois tocos bem grandes e... e... Mas aquilo na beira da praia no  um toco. Pelo que sei, tocos no tm braos nem pernas... Baro:  um homem! E ele pode estar morto!
Assustada, Suzy saiu da janela e correu para a cozinha: precisava entrar em contato com o servio de emergncia! Mas ao chegar na cozinha lembrou-se que no mandara ligar o telefone pois quando fora para aquela casa estava pretendendo ficar bem longe do mundo civilizado.
	Como sempre, voc tem ideias maravilhosas, Suzy Harper.
Faz trinta e dois anos que voc tem ideias geniais! Um homem jogado na praia e voc no tem como pedir ajuda.
Suzy abriu a porta da cozinha com cuidado. Dali dava para ver o homem que continuava sem se mexer.
	Agora tenha um pouco de coragem e v at l!  Suzy estava parada junto  porta.  Mas ele pode estar fingindo, no pode? Voc se aproxima e pronto:  atacada! Se pelo menos tivesse uma arma, poderia chegar perto dele com mais segurana.
Suzy inspirou profundamente. Precisava fazer alguma coisa. No podia ficar ali parada sem fazer absolutamente nada!
Com muita cautela, se aproximou do homem e ficou olhando para ele.
"Ele no pode estar morto! Deus, por favor, no brinque comigo: o que vou fazer com um homem morto? Decorar o seu corpo com flores de plstico e conchas?", ela se perguntava em pensamento.
Vendo que o homem continuava em se mexer, Suzy agachou-se ao lado dele e ficou olhando. Mesmo de bruos, com os braos estendidos para frente e com quase metade do corpo coberto pela gua, dava para perceber que o homem tinha um belo fsico.
	Ele poderia pelo menos dar um sinal de vida. O que eu fao na praia de camisola, na companhia de um homem que no sei se est morto? E ele usa umas roupas estranhas...  Suzy balanou a cabea.  Ser que agora, Suzy Harper, vai se preocupar se o homem conhece ou no a moda masculina atual? Esquea a roupa e faa alguma coisa til!
Suzy achava que a primeira atitude a tomar seria coloc-lo de costas.
	Isso. De costas. Voc tem que coloc-lo de costas. Mas se estiver morto? Vai comear a gritar de medo?  Com cautela, encostou um dedo no brao dele e imediatamente o retirou.  Se est morto eu no sei, mas esse homem est supergelado! Mas isso pode ser por causa da gua.
Ela entrelaou os dedos como se rezasse e tentou se lembrar do curso de primeiro socorros que havia feito.
	Acho que primeiro devo bater nas costas dele. Ser que  isso mesmo que tenho de fazer?  Ela pensou um pouco e concluiu:  Bem, se de nada adiantar, caso esteja vivo pelo menos vai saber que eu estou aqui. Mas ser que se eu fizer isso no vou prejudic-lo ainda mais?
Suzy pensou um pouco e resolveu bater nas costas do homem. Mas logo desistiu.
	g melhor vir-lo de costas.  Desta vez Suzy no titubeou e resolveu fazer o servio. Mas onde encontrar foras para virar um homem daquele tamanho?  No interessa se voc tem ou no foras. Vamos! Vife esse homem de barriga para cima!
Com um esforo muito grande ela finalmente conseguiu vir-lo.
	Agora chega de pnico! Ponha em prtica os seus conhecimentos!
Como por milagre tudo o que havia aprendido no curso foi se descortinando a sua frente.
	 isso mesmo! No desista! Continue! Vai dar certo! Quem diria, hem Suzy Harper? Quem diria que um dia voc estaria numa praia de manhzinha, tentando ressuscitar um homem!
De repente o homem tossiu.
	Maaaravilha!  ela gritou e continuou executando tudo o que se lembrava.  Agora respire, moo! Vamos, respire! No est me ouvindo? Respire!
De repente, dois olhos de um azul estonteante a fitaram.
	Nossa! Mas que cor de olhos!  ela disse admirada.
O homem, depois de alguns instantes a empurrou e comeou a vomitar violentamente.
Suzy agora fitava o homem com imenso orgulho. Ela havia conseguido. Ela, a avoada Suzy Harper havia conseguido salvar a vida de um homem. A vida fizera dela uma herona!
"Quem disse que eu s sirvo para fazer reviso de livros? Tambm sirvo para muitas outras coisas!", ela pensava satisfeita.
	Melhorou?  Suzy perguntou ao homem que continuava deitado.
	No estou sentido-me nada bem. O que aconteceu?
	A mim voc vem perguntar o que aconteceu?
O desconhecido tentou levantar-se mas voltou a deitar-se.
Suzy foi para mais perto dele e estendeu-lhe a' mo.
O homem ficou olhando para a mo dela sem saber o que fazer.
	Vamos, pegue a minha mo. Eu ajudo voc. Vai querer ficar o dia inteiro deitado a?  Vendo que ele mal conseguia se mexer, ela voltou a agachar-se.  Se apoie nos meus ombros. E foi exatamente o que ele fez. S que nos instante em que Suzy estava se levantando, o homem soltou todo o peso do corpo sobre ela.
	O que est pensando que eu sou? A Mulher Maravilha? Se no me ajudar, no vou conseguir. Voc  muito pesado. Tambm com um corpo desse! Seria muito bom que voc tivesse os msculos menos desenvolvidos e fosse um pouquinho mais leve. Fora, moo! Fora! Tente se ajudar e me ajudar um pouquinho mais. A minha casa fica bem perto daqui. E voc tambm no precisava ser to alto! Ou eu podia ser menos baixinha!
O homem finalmente conseguiu se levantar.
	Otimo! Mas no jogue o seu peso todo em cima de mim. Se continuar fazendo isso, vou me afundar na areia.  Mas o homem parecia que no a escutava.  Desse jeito no vai dar. Deve estar sendo muito difcil para voc. Vamos fazer o seguinte: volte a sentar-se e eu vou tentar entrar em contato com as autoridades. Voc no corre nenhum risco. Vai demorar muito para a mar voltar a subir.
De repente o homem passou a se apoiar quase que completa-mente nas prprias pernas.
	No, no quero que chame as autoridades. J estou bem, pode acreditar.
	Sabe que fazemos uma bela dupla? A Mulher Maravilha e o Super-homem!
Mas a fora dele logo se esgotou. Ento, passo a passo os dois foram caminhando at a porta da casa. Quando entraram, Suzy resolveu lev-lo at o seu quarto.
	No, no faa isso. Estamos chegando' ela recomendou quando percebeu que ele, mais uma vez, se apoiava quase que completamente em seus ombros.  S faltava ns dois cairmos agora! Aguente firme. S faltam mais alguns passos.
Usando o pouco da energia que ainda lhe restava, Suzy fez com ele chegasse at a cama.  Deite-se. Vamos, deite-se.
O desconhecido deixou aquele corpanzil cair de repente sobre a cama. Com o barulho, Baro saiu correndo miando.
	Estarei eu no cu?  o homem perguntou olhando para ela.
- E ainda tem alguma dvida? Voc est no cu e eu sou o anjo Gabriel. Mas no precisa se preocupar. Voc no morreu. Nem eu. Ainda! Mais um pouco apoiando voc e na certa eu teria partido desse mundo para-o outro. Nunca pensei que fosse uma mulher to forte. Mas agora estou precisando descansar um pouco. Afinal, ningum  de ferro. Eu pelo menos no sou. Quanto a voc, tenho quase certeza que  de ferro, sim.  Suzy respirava com muita dificuldade.  Mas deixa eu me recuperar um pouco. J j vou sair para procurar ajuda.
	No!  ele exclamou, fazendo um grande esforo para manter os olhos abertos.  Voc ser muito bem recompensada pela ajuda que me deu e tambm pelo seu silncio.
Ser que ouvira direito o que ele lhe dissera? Aquele homem estava prometendo-lhe uma recompensa pela a ajuda e pelo silncio dela? Mas Suzy no queria fazer nada de anormal. Se ainda estivesse pensando em ligar para o Arnie, o locutor daquela rdio maluca, a sim o desconhecido teria que ficar preocupado. Arnie na certa faria o maior estardalhao e rapidamente toda a regio saberia o que tinha acontecido. Mas a nica coisa que estava pretendendo fazer era pedir ajuda.
	Olha aqui, moo, voc est ferido. Se ainda no sabe, tem um belo corte na cabea e eu o encontrei desmaiado. Pensei at que estivesse morto. Quem pode me assegurar que no est com o crnio fraturado? Isso pode ser muito perigoso. No sou mdica e tenho que tomar algumas providncias. No posso...
	Cale-se! Deus, ser que vou precisar costumar a lngua desta mulher?  ele a interrompeu com firmeza. Depois tocou o peito e a nuca  procura de algo.  Meu embornal! O que fez com o meu embornal, senhora? Eu preciso dele.
Suzy olhava para o homem que ajudara e agora ocupava sua cama com vontade de esgan-lo. Onde j se viu algum ser to grosseiro? Ela lhe salvara a vida! Quem ele pensada que era? O dono do mundo?
 Diga-me, senhora, onde ps o meu embornal?
Na certa ele ficou na praia ou voc o perdeu  ela disse com um imenso prazer pois sabia que a resposta iria irrit-lo.
O homem virou-se para a janela e ficou em silncio. Suzy, prxima  cama, via o estado que seus lindos lenis haviam ficado.
Ele voltou-se e pareceu ter ficado chocado com a presena de Suzy.
	O que ainda est fazendo aqui? Por que deixou meu embornal na praia? V busc-lo imediatamente!
"O que ser que tem dentro desse embornal? E que palavra mais antiga... Embornal? Se ainda ele estivesse preocupado em ter perdido a bolsa, tudo bem. Mas embornal... E eu que pensei que fosse ter um homem aos meus ps, me agradecendo por ter lhe salvo a vida... Sou" mesmo uma grande idiota. E a histria de costurar a minha lngua... Ah, esse macho desqualificado ainda me paga!", Suzy pensava, olhando bem no fundo daquele olhos azuis.
	Vou tomar um banho e depois procurarei algum para cuidar de voc.
	V imediatamente procurar o meu embornal!
	Voc s pode ser louco! Est na minha casa e ainda grita desse jeito desse jeito comigo! V para o inferno!
	No dirija-se a mim dessa maneira!  ele disse e imediatamente levou a mo  cabea.
	Tudo bem, tudo bem... No tirei voc da praia para v-lo morrendo na minha cama. Se essa porcaria de embornal  to importante, vou procur-lo para voc. Mas v se fica calmo. O que tem nesse embornal? Drogas?
	Drogas? E o que eu faria com drogas? Eu no sou um boticrio.
	Voc no  o qu?
	Eu no sou um boticrio  ele voltou a responder.
E ele repetira a palavra! No seria melhor ter dito que no era um farmacutico? Ou ficar calado?
	Se no tem drogas no seu embornal, o que voc tem l dentro?
	O meu manuscrito  ele respondeu, tentando vira-se de lado.  Apenas v busc-lo. Por favor, traga-o para mim. Depois, deixe-me descansar um pouco aqui e prometo que me retirarei. No quero causar-lhe nenhum problema, nenhum tipo de problema.
Agora havia melhorado. Ele lhe pedira com educao que fosse procurar o embornal.
 No precisa me fazer promessas. Descanse o tempo que for necessrio  Suzy disse, mas o homem havia adormecido. -  muita grosseria... Me deixar assim falando sozinha...
Suzy sabia que o correto seria chamar a polcia ou ir atrs de um telefone para pedir uma ambulncia. Logo estaria com pessoas ali para ajud-la. E ela precisava de ajuda. E como! Antes, porm, iria procurar o embornal.
Suzy deu uma andada pela praia, certa de que no iria encontrar nada. Mas de repente, ela viu o embornal misturado com o lixo, uns metros adiante do local que encontrara o homem.
Com o embornal pendurado no ombro, ela aproveitou para pegar alguns pedaos de madeira para a ser, 0'Connell. Intrigada, sentou-se numa pedra. Aquele homem era bastante estranho: lindo, mas estranho! Falava de um jeito diferente, tinha um sotaque que parecia britnico e usava umas roupas...
Suzy ficou ali sentada por alguns minutos. Que atitude tomar? Talvez no devesse chamar nem a polcia nem uma ambulncia. Apesar de achar que homem era estranho e grosseiro, sentia que no corria nenhum tipo de risco.
	E fisicamente ele parece muito bem. S deve estar agora muito cansado. Por isso tambm no vou chamar a ambulncia.
Decidida a ler o manuscrito dele depois que tomasse um banho e fizesse um caf, Suzy foi para casa.
"Ser que ele  mesmo um escritor? Vou dar uma olhada nesse manuscrito para ver se  possvel public-lo. Mesmo se no for muito bom escritor, posso dar uma olhada no texto e entregar para o Wilbur ou para algum outro editor. Quem sabe? No custa arriscar!", ela pensava j no banho. "Na minha vida j aconteceram muitas coisas estranhas, mas encontrar um homem quase morto em frente a uma casa de praia... e ainda com um manuscrito... a j  demais... Se contasse, ningum iria acreditar..."
	Acreditariam, sim, Suzy. Mas  claro que acreditariam. Mas  claro que acreditariam. Todo mundo sabe que com voc acontecem coisas incrveis!  ela disse em voz alta.  Portanto, no se preocupe!

Capitulo II

Harry acordou por causa do suave aroma de caf Lque havia inundado o ambiente. Imediatamente ele deu-se conta que a fome que sentia era muito grande.
Por causa da tempestade, h dias no se alimentava direito. Uma vez, ao tentar cozinhar, havia escorregado e quebrado a perna. A galera se desequilibrara por causa de ondas muito fortes.
Fora um verdadeiro estrago. No instante em que a galera tombara para a direita, o caldeiro de sopa havia acompanhado o movimento da embarcao e nada conseguiu det-lo: ele foi parar no cho. E o cozinheiro tambm.
Mas agora o mar estava bem calmo e, finalmente, a tempestade parecia ter ido embora. J no era sem tempo: ela os atormentara bem mais do que o suficiente.
Ele moveu a perna devagar e percebeu que estava numa cama, e no na rede estreita que vinha dormindo no Pegasus nos ltimos dois meses.
Aquela deveria ser a cabine do capito, mas como fora parar ali, no tinha a menor ideia.
Claro! Mas  claro que se lembrava! Ele tinha ido ao convs para dar uma olhada l fora. Lembrava-se tambm que conversara alguma coisa com uma pessoa e depois... mais nada.
Harry franziu as sobrancelhas e imediatamente sentiu muita dor. Levou a mo at a testa e viu que ela estava inchada.
Pronto! Agora sabia o que havia lhe acontecido. Mesmo contra o conselho dos marinheiros, insistira em ir ao convs e l algo lhe acontecera. O capito, ento, o levara para a sua cabine.
Mas ele ainda estava todo molhado e algum o cobrira com um lenol. Melhor assim: pelo menos por algum tempo estaria livre daquele maldita rede.
Ele sentiu a maciez do colcho e adorou o cheiro de limpeza daqueles lenis.
Devagar, Harry abriu os olhos para ver direito como era a cabine do capito e se deparou com um crculo de lminas de metal penduradas no teto.
 Mas que raio de inveno  essa?
Ele virou a cabea para a esquerda e viu que estava num quarto grande, muito grande mesmo para a cabine de um capito. E o quarto possua moblias brancas, que ele imediatamente as identificou como pertencentes ao estilo francs.
Estilo francs? Mas que diabo de lugar ele tinha ido parar? E aquele no era um quarto qualquer: tinha certeza de que pertencia a uma mulher!
Harry virou-se ento para a direita, com o corao em disparada e viu que a pouca luminosidade do quarto entrava atravs de vria lminas justapostas que tinham sido colocadas em frente  janela. Ele piscou para ver se estava acordado. E piscou mais ainda quando viu em frente  cama, pendurado na parede, um quadro com a pintura de uma mulher.
Era um quadro grande. A mulher era muito jovem e muito bonita. A pintura a mostrava junto ao mar, com as mos para trs e os cabelos ao sabor do vento.
Ela mais parecia um ser etreo, uma fada, com aquele vestido comprido com flores rosa e amarelo.
Harry prestou mais ateno no quadro que estava diante de si e viu que numas pedras, ao lado da mulher, tinha um chapu com pequenas flores o enfeitando.
Mas o que deixou Harry profundamente impressionado foi o rosto da mulher. E aqueles olhos azuis que pareciam sorrir.
Eu estou no cu?
E voc ainda tem alguma dvida? Voc est no cu e eu sou o anjo Gabriel.
 Mas o que est acontecendo?  Harry estava muito confuso e tinha a sensao que milhares de sinos haviam resolvido tocar dentro da sua cabea.
	Quer dizer, ento, que acordou? timo. Voc dormiu durante vrias horas. O cheiro do meu caf faz milagres. Mas acho que antes de comer voc vai querer tomar um banho. Sua roupa est molhada, suja e no cheira muito bem. Pelo jeito vou ter que comprar um colcho novo. Mas  esse o preo que tenho que pagar por ter me tornado uma herona, no acha? A propsito: enquanto dormia fui comprar umas roupas para voc. Algumas roupas de baixo e outras peas. Essas que est usando, depois de bem lavadas ainda podem ser aproveitadas. O banheiro dos hspedes fica logo na sada do quarto,  direita.
Suzy parou de falar por alguns instantes. Afinal, precisava respirar um pouco. Depois continuou:
	S esqueci de lhe dizer uma coisa: sou Suzanne Harper, mas pode me chamar de Suzy.  o que todos fazem. E essa cama que esteve dormindo  minha.
Harry olhou para a fotografia de Suzy na parede e depois para ela. Sim, aquelas duas mulheres eram a mesma pessoa. Mas a que estava ali na porta no quarto falava muito. Muito. E usava um vestido de listras verdes com fundo branco de um material diferente, os cabelos estavam presos e nos ps usava um chinelo estranho.
Algumas lembranas difusas fizeram Harry ficar mais confuso ainda. J vira aquela mulher em algum lugar. Mas onde? E a roupa que na ocasio usava era diferente. Nas lembranas ela estava quase nua. Ser que era isso mesmo?
Ele fechou os olhos e tentou se lembrar. A mulher, alm de quase nua, tambm estava cansada por causa do esforo que tinha de fazer.
Foi voc... Estou lembrando-me... Foi voc quem retirou-me do mar, no foi? Nenhum dos marinheiros conseguiu. Mas voc, sim. Tenho certeza que estou na presena de uma americana. O sotaque do americano  muito caracterstico. Onde exatamente ns estamos? Quem  que manda nessas terras? Desculpe-me essa pergunta  tremendamente tola. Faz tempo que j no con
trolamos muitas coisas. Voc salvou-me para entregar-me aos seus soldados?
	Era s essa que me faltava!  Suzy exclamou tendo a certeza que o delrio daquele homem iria demorar a passar.  Por que tudo acontece comigo? Mas tambm, por que no? Por que desta vez teria que ser diferente?
Harry prestava ateno em cada gesto de Suzy e se assustou quando ela lhe jogou uma espcie de bolsa.
	Agora, amigo, oua: no estou a fim de confuso. Tome um banho e v embora. Deixei o seu embornal no banheiro. E pode ficar tranquilo: no o abri, portanto no sei o que tem dentro. Enquanto voc toma banho, vou dar uma andadinha na praia: eu e minha carteira,  lgico. Portanto no adianta procur-la. Certo?
Vou ficar l contando at mil. Quando terminar, se ainda no tiver ido embora, vou chamar a cavalaria! Entendeu?
	Espere!  Harry gritou. Precisava fazer alguma coisa antes que ela sasse. Algo que a fizesse desistir de tomar qualquer tipo de atitude. Algo que a fizesse perceber que no lhe faria nenhum mal. Se deixasse a segurana que encontrara ali naquele local, logo estaria preso.
	Ainda no lhe agradeci tudo o que fez por mim, sra. Harper. E estou fazendo isso neste momento.  Ele a fitava com respeito.
 A senhora fez algo muito nobre: salvou a vida de um homem. Meu nome  Harry Wilde. Ser-lhe-ei eternamente grato.
	Espero mesmo que sim. Tambm ser-lhe-ia eternamente grata se no me causasse nenhum tipo de aborrecimento.
	Eu aborrec-la? Por que o faria?
	No sei. Mas apesar de tudo, me sinto muito orgulhosa: eu, Suzy Harper, salvei um homem. Quando o encontrei, pensei que estivesse morto. Pensei, no: tinha certeza que estava morto. Mas tambm com a pancada que levou na cabea at o Super-homem iria para a lona.
	Super-homem? Ele  algum soldado muito forte?
	Voc nem imagina o quanto. E ainda voa.
	Um soldado que voa?  Harry levou a mo  cabea. Pelo jeito aquela mulher era perigosa. E no gozava plenamente de suas faculdades mentais.
		Esquea o que eu disse, est bom? V se toma um banho agora. Vou preparar alguma coisa para voc comer. Se quiser, pode usar o meu banheiro particular.  ali naquela porta.  Suzy apontou para o fundo do quarto.  Depois de tomar banho e comer, gostaria que fosse embora.
Harry estava muito preocupado. Quase no entendia o que aquela mulher falava. Com muito cuidado, ele afastou o lenol que o cobria e foi se levantando. A cabea doa tanto que parecia que ia estourar.
Sentado na beirada da cama, ele tentou ajeitar a roupa da melhor maneira que pde. Afinal precisava mostrar o mximo de dignidade diante daquela que lhe salvara a vida. E alm do mais, h mais de dois meses no via uma mulher.
	Mais uma vez quero agradec-la, sra. Harper  ele falou no tom mais amigvel que encontrou.  Talvez agora a senhora poderia pedir a um dos seus criados que me trouxesse uma tina.
Isso se no for lhe dar muito trabalho.
	Voc s pode estar brincando comigo! Criados? E voc quer uma tina?  Suzy o fitava com os olhos arregalados e naquele instante perdeu o resto do medo que ainda sentia daquele homem. Com o dedo em riste, aproximou-se da cama.
Harry ficou olhando para o dedo dela e no gostou de ver uma mulher to bonita com unhas vermelhas.
Ser que tinha ido parar na casa de alguma cortes? Mas isso tivesse acontecido, no teria o menor problema. O mar poderia t-lo levado para qualquer lugar.
Suzy olhava para Harry e para o prprio dedo e pensava:
"O que esse idiota fica olhando tanto para o meu dedo? Meu Deus do cu... To lindo e to louco! Mas tenho que me manter firme com ele, caso contrrio vou arrumar mais confuso ainda!"
	Olha aqui, moo  ela continuava com o dedo muito prximo ao rosto dele.  Pensei que eu fosse meio maluca, mas voc ultrapassou todos os limites. Brincadeira tem hora e lugar, sabia? Apesar da pancada que levou,  bom parar com isso! Aqui no  a velha Inglaterra!
	Eu sei. Eu sei que no estou na Inglaterra.
	 mesmo? E o que mais voc sabe?
	Sei que estou na Amrica.
	E mesmo? E como sabe que est na Amrica?
	Perdoe-me o que vou dizer, mas sei disso por causa do seu sotaque esquisito.
	Ah! Quer dizer que o meu sotaque que  esquisito! Esses ingleses no mudam nunca!
	Sei tambm que sou seu prisioneiro.
	Meu prisioneiro?
	Sim, senhora.
"Estou achando que no foi s a pancada que o deixou assim. Ele pode ser louco de nascena!"
	Quer dizer que voc  o meu prisioneiro...
	De guerra. Prisioneiro de guerra, senhora. Deve ter ouvido que h pouco tempo capturamos uma de suas fragatas. Se no me engano, o nome dela era Chesapeake.
	Ah... Entendi...  Suzy disse voltando a ficar perto da porta.  Voc est se referindo quela fragata chamada Chesapeake. Sei... Isso eu acho que aconteceu na guerra de 1812. Pelo menos acho que foi essa a data que li num livro que fiz a reviso. Agora eu entendi. Voc deve ser um professor e, como a maioria dos professores, est tentando saber se est diante de uma pessoa escolarizada. E para isso resolveu fazer uma brincadeirinha.
	Com sua permisso, senhora, gostaria de lhe dizer que o som de sua voz  maravilhoso. Mesmo assim no entendo nem a metade do que est me dizendo. No sou um professor, mas sim um escritor. Neste instante, porm, sou um soldado. E seu prisioneiro.
	Sei...  Suzy tentava se controlar. O homem continuava a falar besteiras como se fossem a coisa mais natural do mundo.
"Ou ele  louco, ou  um excelente ator! Entra na minha cassa, dorme na minha cama e fica me tratando como seu eu fosse uma perfeita idiota", ela pensava.
	Infelizmente tenho que aceitar o fato de eu ser prisioneiro.
Mas posso fazer-lhe uma pergunta?
	 vontade  Suzy respondeu com vontade de gritar.
	No entendi o que falou sobre a guerra de 1812. Da maneira que se referiu a ela, parece que j terminou. E, pelo que me consta, agora em 1813 a situao continua muito difcil entre os nossos pases. Ainda mais com Napoleo fazendo o que est fazendo.
 Sei... 1813...  Com um dedo ela comeou a enrolar uma mecha de cabelo. Napoleo tambm. Claro, Napoleo est em plena atividade. Se voc diz, quem sou eu para contrari-lo? No vou estranhar se de repente Napoleo em pessoa estiver sentado na minha cama. Vamos Ia, professor. Continue: estou aqui para ouvi-lo.
Enquanto falava, Suzy no parava de fit-lo. Mais do que nunca . tinha certeza que estava diante de um louco ou de algum impostor. E isso comeava a. deix-la muito zangada.
 Apesar de ser uma mulher diferente daquelas que conheo, a senhora se comporta da mesma maneira: no entende nada do mundo dos homens. Por que estranha quando digo que situao continua estremecida entre os nossos pases? Estamos em 1813. Para ser mais exato, estamos em 3 de agosto de 1813! Se essa no for a data exata  porque devo ter ficado um tanto confuso por causa daquela maldita tempestade. Mas sou ingls e a senhora  americana. E nossos pases esto em guerra!
 Em guerra! Claro... estamos em 1813 e a Inglaterra e a Amrica esto em guerra.  Suzy tinha a sensao que falava com uma criana que conhecia um pouco de Histria.
"Daqui a pouco ele vai comear a dizer que foi atacado por um imenso drago que soltava fogo pela boca e pelo nariz. Depois vai me contar... Sei l! Sei l o que esse homem vai inventar. Vai saber at onde chega a imaginao dele!"   
	Est vendo aquilo l?  ela perguntou.
	O qu?
	Ali, no canto do quarto.
	A senhora est se referindo quela espcie de caixa, sra. Harper?
	Caixa? Mas de que caixa voc est falando?
	Refiro-me exatamente  caixa que a senhora apontou. E l que guarda os seus pertences?
	Aquilo no  uma caixa. E uma televiso. Entendeu?  ela voltou a repetir:  Aquilo no  uma caixa:  uma televiso!
	Mas pensei que fosse uma caixa!
	Pois pensou errado.
	Mas o que  uma televiso?
	Televiso  uma...  Suzy, com muita raiva, interrompeu a frase.
Harry viu que ela pegou uma caixa bem menor e apertou um boto que fez um clique.
	No olhe para mim! Olhe para a caixa! Est vendo? Loucura pega! Olhe para a televiso.
Devagar, ele virou-se e olhou para a televiso. Na tela, Popeye cantava sua cano to caracterstica.
Harry voltou a olhar para Suzy quando ouviu outro clique.
	Peguei voc, no foi impostor?  Ela sorriu satisfeita.  Vamos, continue a dizer que estamos em 1813. Continue falando que a Inglaterra e a Amrica esto em guerra. E, se quiser, tambm pode continuar falando sobre Napoleo.
Harry no prestava ateno nas palavras de Suzy.
	Por que voc ficou quieto? E vergonha? Mas  claro que  vergonha! Tambm ficaria envergonhada se fosse desmascarada do jeito que desmascarei voc.
	Mas que mgica fascinante!  Ele se levantou da cama e se ajoelhou diante da televiso, colocando as mos na tela.
	O que  que voc est fazendo agora?
	Para onde ele foi?  Harry alm de surpreso, estava pro fundamente impressionado.
	Ele quem?
	O marinheiro que dizia chamar-se Popeye.
	Eu... eu no acredito! Eu no mereo!  Suzy ps as mos na cabea.
	Como  que a senhora o fez falar?
	Quer dizer, ento, que voc no sabe? Quer dizer que quer mesmo continuar com essa farsa?
Harry viu que a pequena caixa que Suzy deixara sobre a cama, cara no cho.
	O que a senhora fez com o marinheiro?  ele voltou a perguntar.
	Eu., eu... Eu no posso continuar com isso. Acho que voc no se lembra mesmo do Popeye. E no estava fingindo quando pediu que um criado lhe trouxesse uma tina. Voc precisa de um mdico! Acredita mesmo que estamos em 1813, no acredita?
	No s acredito, como tenho certeza que estamos em 1813! Eu estava a bordo quando a tempestade comeou. E foram trs dias de tempestade. Ser que tem mais algum aqui com quem eu possa falar? Sua governanta, talvez. Quem sabe com o seu dono?
Harry agora olhava para Suzy com um profundo carinho. E estava preocupado: ela estava plida e muito ansiosa.
	Sra. Harper, a senhora est bem?
	Ele acredita. Ele acredita que estamos em 1813  ela disse em voz baixa.  Mas aparentemente ele no tem nada de louco. Nada. Mas esse homem tem que estar louco. Se no estiver vou ter que comear acreditar que veio do...
"No! Voc no pode entrar na loucura alheia, Suzy Harper. De loucura, chega a sua!", ela agora pensava. "Mas como dizer a esse deus loiro que ele no est em 1813? Como dizer a ele que..."
Suzy no teve tempo de terminar o pensamento. Tudo a sua volta comeou a girar. E se no fosse a agilidade de Harry, ela teria cado no cho.

Capitulo III

Suzy voltou a si e logo viu que fora deitada sobre os lenis midos.
O que teria acontecido com ela? Ser que fora um desmaio? Claro, mas claro que tinha sido um desmaio! Quem no desmaiaria diante da hiptese e do pressentimento de estar diante de um homem que era um viajante do tempo? Qualquer um. Desmaiar era o mnimo que poderia ter acontecido com ela. O susto tinha sido to grande que a essas alturas dos acontecimentos poderia estar morta. Ou ser que estava morta e ainda no percebera?
No, no havia morrido. Ela estava certa disso aps ter dado uma olhada pelo ambiente.
	S se o meu quarto e o deus loiro me acompanharam at o alm.
Ela fechou os olhos. Aquilo tudo no podia estar acontecendo. Era um sonho. Logo acordaria e riria muito daquilo tudo. Quando contasse a sra. 0'Connell que tinha sonhado com um homem que viera diretamente de 1813 para o seu quarto, as duas dariam boas risadas. O difcil seria explicar  amiga o quanto o homem era lindo. Mas j que era tudo fantasia, tinha o direito de sonhar com o que bem entendesse. Ou no?
Suzy resolveu ficar em silncio e manter os olhos fechados. Quando os abrisse estaria de novo na cama, a tempestade teria terminado. Ento, ela se levantaria e iria pegar os pedaos de madeira para a sra. O'Connell.
	Harry, voc inda est a?
Continue deitada, mulher, e calada. Ou vai desmaiar de novo.
	Repita  ela pediu.
	Continue deitada, mulher, e calada. Ou vai desmaiar de novo.
	E no  que ele repetiu?  Suzy balanou a cabea de um lado para o outro.  Continue deitada, mulher. E isso l  maneira de se falar?
Ela abriu os olhos e o ingls vindo dos mares continuava l: sentado na cama, fitando-a com aqueles dois imensos olhos azuis.
	Harry?
	Pois no, senhora.
	Voc existe mesmo?
	A senhora no est bem. Descanse  ele recomendou com pacincia.
	Pensei que tivesse tendo um pesadelo.
	Se teve um pesadelo, senhora, eu no sei. Mas tenho certeza que desmaiou.
	No podia mesmo ser um sonho, um pesadelo. Tinha que ser verdade, Suzy Harper. E voc ainda ousou duvidar?
	Sobre o que est falando, mulher?
	Achei que estivesse tendo um sonho e quando acordasse, voc estaria bem longe daqui. Mas ia ser felicidade demais para uma pessoa s, no acha?
Harry nada respondeu. Apenas ficou olhando atento para ela.
	Me desculpe por esse desmaio fora de hora. No sou dada a esse tipo de coisa.  a primeira vez que desmaiei em toda a minha vida. A primeira e ltima.
Vendo que estava falando demais, comportamento que ele obviamente no gostava, Suzy calou-se. Mas tinha deixado de dizer algo importante. S no se lembrava o qu.
Aps alguns instantes em silncio, ela lembrou-se:
	Harry?  Suzy deliberadamente evitava-lhe o olhar.  Quer dizer: sr. Wilde, tenho algo muito importante para lhe dizer.  algo que no sei se vai gostar muito de ouvir. Estive pensando que talvez o senhor...
	No precisa se preocupar, senhora. Eu j sei.
	Sabe?  ela perguntou espantada.
	Sei.
	Mas sabe o qu?
	Sei que no estamos em 1813  Harry respondeu passando a mo pelos longos cabelos vrias vezes.
Suzy olhava fascinada para aqueles gestos. Ele tinha dedos longos, fortes. Um corpo que mais parecia ter sido esculpido por algum artista. Uns lbios e um rosto...
"Suzy Harper! Pare com isso! O que  que voc est pensando? Ser que perdeu o juzo? Ele ainda est molhado e cheio de areia. Ele pode ter vindo do passado. E voc... voc... Levante-se! Levante-se e saia deste quarto antes que algo de mal lhe acontea!", ela pensava mas continuava deitada sem se mexer.
	Como  que sabe disso?  Suzy quis saber feliz por ter colocado um vestido sobre o biquini antes de entrar naquele quarto.
No podia imaginar o que aconteceria se ele a visse quase nua andando pela casa. Na certa iria pensar que era uma prostituta do sculo dezenove.
"Bem, pelo que sei, as prostitutas do sculo dezenove no usavam biquini, mas que esse homem ia ficar bastante entusiasmado, isso ia... Poderia at me atacar! E se ele fizesse isso? O que aconteceria.  claro que no tem o menor interesse romntico em mim. E nem poderia. Tenho trinta e dois anos. Para os homens da minha poca, at que sou jovem. Mas para quem vem de uma poca em que as mulheres com vinte e um anos eram consideradas velhas demais para se casarem, devo parecer uma anci. E ele deve ter uns trinta e cinco... Bem, isso se fosse da minha poca. Na verdade deve ter mais de duzentos anos... Foi bom, muito bom eu ter pensado nisso! Se um dia disser que no se interessa por mim porque sou muito velha, ele vai ver s!"
Suzy se assustou com aqueles pensamentos.
"Suzy Harper! Pare de pensar besteira! Voc desmaiou ou perdeu totalmente a noo da realidade?"
	Harry, voc no respondeu  minha pergunta.
Ele estava sentado na cama com o controle-remoto nas mos.
	Mas vou responder:  tudo muito bvio, no acha? Essa casa  muito diferente de todas as que conheci, aquela caixa com um marinheiro dentro... Nunca imaginei que isso pudesse existir. Os americanos podem ser criativos, mas no estamos assim to longe de vocs. Mas para falar a mais pura verdade, eu usei isso aqui.  Ele mostrou-lhe o controle-remoto.
	Voc ligou de novo a televiso enquanto eu estava desmaiada? Meu Deus... Pobrezinho, deve estar muito chocado. Mais uma vez Suzy disparou a falar e estava morrendo de medo de desmaiar de novo. Mas at que aquela no seria uma m ideia:  se desmaiasse, adiaria o confronto com aquilo tudo.
	Eu liguei isso, sim... Apertei esse boto aqui e depois alguns outros. O marinheiro desapareceu, mas um homem dentro da caixa me disse.
	E o que foi que ele disse?
	Que estamos em 1994 e no em 1813.
Suzy, percebendo que estava longe de desmaiar, queria algo que a ajudasse a enfrentar aquela situao: uma bebida, talvez.
	Ento voc sabe mesmo.
	Sei. E fiquei sabendo de outras coisa que no tenham a menor noo do que sejam.
	 mesmo?
	A senhora usa expresses de linguagem muito interessantes  Ele sorriu com tristeza e continuou:  Para ser preciso, sei que hoje  4 de agosto de 1994. Sei tambm que a temperatura do aeroporto de Atlantic City  de vinte e oito graus. Mas no entendi por que ele disse aeroporto. Se ele tivesse dito porto, gua-porto, hidroporto, ou coisa semelhante, teria entendido. No entanto, tenho certeza que o homem disse aeroporto. A, fiquei pensando no assunto. E cheguei a concluso que os americanos devem ter inventado algum balo que o homem controla. S pode ser isso. O homem tambm falou sobre a direo do vento e disse que so trs horas da tarde. Estava me esquecendo: ele tambm disse que tem um restaurante chamado Jocelyn onde podemos comer de tudo por preos bem baratos.
Suzy estava sentindo muita pena de Harry. Que situao mais difcil ele vivia. Tambm no era para menos: sair do incio do sculo dezenove e vir parar direto no final do sculo vinte!
 Estou preocupada com voc.  Suzy sabia se algo semelhante acontecesse a ela, no ficaria to calma. No mnimo sairia
correndo pedindo socorro para a me, para o pai e para todos os santos.  Tem certeza que vai ficar bem?
	Ficarei bem, sra. Harper. Muito bem. Pelo menos penso que sim.  Ele colocou a mo sobre a dela.  Mas agora, ainda gostaria muito que me conseguisse a tina que lhe pedi. No tomo banho h muito tempo: desde 1813. E isso  muito tempo.  estranho dizer isso, mas acontece que sinto at um certo orgulho.
	De qu? De no tomar banho a quase dois sculos?
	No. Orgulho-me de estar vivo, quando poderia estar morto.
Orgulho-me de estar vivo em pleno 1994. Isso  uma grande aventura! Assombroso! Simplesmente assombroso!
Suzy olhava espantada para Harry. Pelo jeito ele estava gostando de tudo o que lhe acontecia. No, ele s podia estar fingindo. Fingindo at para ele prprio. Se no fizesse isso, como conseguiria continuar vivendo?
	Pegue aquela sacola que eu lhe joguei e siga-me.  Apesar de estar na frente de apenas um homem, ao se levantar da cama Suzy tinha a sensao de se encontrar diante de um batalho.  Se gostou tanto da televiso, nem imagina como vai adorar o meu chuveiro!
Suzy ligou o chuveiro, acertou a temperatura e, depois de retirar as etiquetas das roupas que havia comprado para Harry, ficou esperando do lado de fora da porta.
Como ele estava demorando muito, Suzy tambm resolveu tomar um banho no outro banheiro.
Apesar de ter demorado bastante sob a gua, quando voltou no quarto Harry ainda no tinha sado do banho.
	Pelo jeito ele gostou  ela disse sorrindo. Infelizmente no tinha nem tina nem criado para oferecer ao meu hspede, mas o chuveiro que ele est usando  fantstico.
Suzy esperou mais alguns minutos. Nada. Harry continuava com o banheiro trancado.
	Ainda bem que expliquei tudo direitinho ao meu hspede.
Afinal, tenho que ser uma excelente anfitri para quem veio me visitar diretamente do incio do sculo dezenove.
Suzy havia lhe mostrado como desligava o chuveiro, entregara-lhe uma toalha e uma escova de dente.
	Felizmente tenho um bom estoque de escovas de dente. Todos os meus amigos que vem de Nova York para me visitar no trazem escova de dente.
Harry ps a cabea para fora da porta e disse:
	O chuveiro  assombroso, sra. Harper. Num instante a gua est l, molhada, quente. No outro, depois de desligado, ela se vai. 
	S faltava a gua ser seca... Ainda no foi inventada uma gua que no molhe  Suzy disse achando muito graa nas palavras dele.
	Sra. Harper, acho que ser impossvel usar as roupas que a senhora me comprou.
	Por qu?
Bastante constrangido, Harry saiu do banheiro e ficou diante de Suzy.
A camiseta sem manga estava perfeita naquele trax bronzeado e o short, deixava-lhe as pernas longas, musculosas, de um dourado invejvel. Completando aquele quadro, o cabelo que lhe ultrapassava os ombros tinham sido penteados para trs. Harry Wilde era inegavelmente um homem estonteante.
Suzy, ainda abalada por aquela presena marcante, balanou a cabea e disse:
	Pare de pensar besteira! Pare antes que seja tarde.
	O que foi que a senhora disse?
	Nada. Apenas no entendi o que h de errado com a roupa.
	No seja estpida, sra. Harper.
	No me chame de estpida. Aqui nessa parte do tempo em que vivemos agora, no  muito educado chamar uma pessoa de estpida  ela o avisou.  Mas o que h de errado com essa roupa?
	Bem, sra. Harper, desculpe-me se a ofendi. Mas voltando s roupas: vi naquela caixa ali que a senhora chama de televiso que o homem se vestia de uma outra maneira. Ele usava camisa, uma espcie de jaqueta e tinha algo no pescoo. No era exatamente igual ao que estou acostumado usar nos clubes do meu pas, mas tambm no era em nada semelhante a essas roupas.
	No acredito... meu hspede est querendo usar terno e gravata na praia...
	Alm disso sra. Harper, no estou entendendo o que est escrito aqui  ele mostrou a parte de frente da camiseta.
	Voc no sabe ler?
	Mas  claro que sei, senhora. Mas no entendi o significado das palavras: Em Ocean City  melhor.
	Mas isso  s uma frase. Hoje em dia as pessoas escrevem frases nas roupas.
	 mesmo?
	,  sim  ela respondeu com uma certa impacincia na voz.
	Mesmo assim no entendi o significado da frase. O que  melhor em Ocean City? E o que  Ocean City?
	Bem, vamos ver se eu consigo lhe explicar esses pequenos detalhes... Ocean City  o nome da cidade que estamos.
	Interessante...
	Agora voc quer saber o significado da frase, no ?
	Quero.
	Ele no desiste. Ele no desiste!  Suzy disse baixinho.  Harry, a pessoa que escreveu esta frase a nesta camiseta apenas estava querendo dizer que  muito bom estar em Ocean City.
	Ento por que ele no escreveu exatamente isso?

	Essa  uma boa pergunta. Se eu conhecesse o autor da frase iria lhe sugerir que o procurasse e lhe fizesse essa pergunta. Mas como no conheo,..
	As pessoas do sculo vinte so muito estranhas.
	Obrigada pelo elogio, Harry. Afinal sou a nica pessoa do sculo vinte que conhece. Queria ver voc andando pelas ruas de Nova York. Mas esquea a frase. Posso lhe assegurar que a roupa que est vestindo  muito apropriada para ser usada na praia. Todo mundo usa camisetas semelhantes a essa. Relaxe, e tente ser feliz.
	Continue, sra. Harper. Continue... Divirta-se s minhas custas, mas nada do que diga ir me convencer que  normal andar com uma roupa dessas.
	Ele vai continuar...  Suzy j no sabia o que dizer ao seu estranho visitante.
	E no me olhe com tanta empfia, senhora. Acontece que no quero chamar ateno sobre a minha pessoa, no quero revelar o meu drama para mais ningum. Preciso de tempo para pensar na situao em que me encontro. De maneira alguma quero me tornar uma atrao de excentricidade.  por isso que quero ordenar-lhe que volte ao local que adquiriu essas roupas e compre algo mais adequado.
	Harry, com toda a certeza voc viu na televiso um homem usando terno  ela disse com pacincia.  Se insistir em usar um terno na praia, a, sim, vai chamar a ateno de todos. Ningum usa terno na praia, acredite em mim. E tem uma coisa: no quero receber ordens de ningum. Portanto, pare de falar comigo da maneira como tem feito. No gosto disso!
Ele a fitou com um certo desdm.
	E para terminar: Ocean City  um local onde as pessoas vem passar as frias. E frias hoje em dia significa alguns dias sem compromissos, sem a necessidade de usar terno e gravata.
	E difcil acreditar.
	Pois acredite. Vamos fazer uma coisa? Enquanto eu preparo algo para comermos, gostaria desse uma olhada na praia a na frente. Veja como as pessoas se vestem.
Enquanto Harry conhecia a praia, Suzy que no era uma boa cozinheira, preparou dois lanches rpidos pegou dois copos de suco e, depois de colocar tudo em uma bandeja, foi encontr-lo no terrao.
	Est gostando?  ela perguntou colocando a bandeja sobre uma mesa.
	No acredito no que vejo  Harry respondeu, de costas para Suzy,
Ela olhou para aqueles ombros largos e quis saber:
	Voc no acredita em qu?
	Em tudo isso que tenho diante de mim.  gente demais. Quando estava a bordo do Pegasus s vi areia, uma floresta de pinheiros e pssaros. Agora isso aqui parece que foi invadido. Pergunto-me agora se estarei no paraso ou no inferno.
	Inferno?  Inconformada com aquele comentrio, Suzy olhou para a esquerda e depois para a direita.  No concordo com voc. Aqui  um dos lugares mais famosos de Ocean City. Frias aqui fica uma verdadeira fortuna. Se duvida posso lhe mostrar o recibo que o proprietrio da casa me forneceu. Mas por que voc acha que aqui  o inferno?
Ele virou e a fitou com um sorriso malicioso.
	Bem, no diria que esse local  exatamente o inferno, mas me surpreende que as pessoas vivam dessa maneira to primitiva.
	Primitiva? Ocean City?
	Primitivas, sim. O mundo precisa de progresso. E o que eu vejo aqui? Nada.  certo que conheci chuveiro eltrico, televiso... Mas olhe para essa pessoas. Elas fazem a maior confuso. Gostaria de saber sra. Harper, se hoje todos na Amrica andam assim quase nus.
	Voc est se queixando Harry? Gostaria que essa sua viagenzinha toda particular atravs do tempo o tivesse levado para o sculo dezessete?
	No sei...
	Essa sua aparncia de modelo vai lev-lo a ser endeusado por essas mulheres quase despidas que vai encontrar na praia. Ser que iria preferir se encontrar com mulheres inteirinhas vestidas com tecidos pesados, quase que totalmente encobertas?
	No entendi uma das palavras que a senhora disse.
	E qual palavra  essa?
	Modelo.
Suzy explicou-lhe como era que muitos homens e mulheres bonitos ganhavam a vida.
	Entendeu?  ela perguntou no final da explicao.
	Nem tudo. Mas me dou por satisfeito. Agora quero o meu caf.
	Sente-se aqui. Preparei dois sanduches congelados.
	Mas como vou alimentar-me com algo congelado?
	Harry, acredite, se fosse lhe explicar mais esse detalhe dessa nossa civilizao, os sanduches iriam esfriar.
	Mas a sra. acabou de dizer que a comida est congelada.
	Isso foi s fora de expresso.
	E onde est o meu caf?
	Eu no trouxe caf, Harry. Trouxe os sanduches e suco de laranja.
	V buscar o meu caf, mulher!
	V voc!  ela gritou.  J disse que no gosto que me dem ordens.
	Nenhuma mulher falou assim comigo antes  Harry estranhou a maneira que Suzy havia respondido.
	Sempre tem a primeira vez para tudo, no ?
	Quero o meu caf. Agora.
Suzy no deixou por menos e respondeu:
	V busc-lo voc. Agora.
Harry ficou sem saber o que fazer.
	O caf est na garrafa trmica.
	Garrafa trmica? O que  isso?
	Tudo bem, Harry. Tudo bem. Eu vou buscar o caf, est bem? Sente-se, coma o seu sanduche, tome o seu suco, que eu vou buscar o caf. E pode ficar tranquilo: a comida  boa. Nada vai lhe acontecer de mal. Voc precisa se alimentar direito. Quem sabe quando estiver mais adaptado eu o leve a almoar ou jantar no Jocelyn? Por enquanto no vai dar. Voc ter que se contentar com os meus congelados. E, por favor: no pergunte nada sobre congelados. Certo?
Suzy foi at a cozinha, pegou a garrafa trmica, duas xcaras e voltou para o terrao.
Harry estava terminando de comer o sanduche.
	A senhora acha que ficarei aqui por muito tempo?
	Aqui nesta casa?
	No, no sculo vinte.
	E isso  pergunta que se faa? E eu sei l! Como vou saber umas coisa dessas? No entendo nada de viagem atravs do tempo. Minha imaginao  frtil, mas nem tanto assim.
	Acho que tudo o que aconteceu tem a ver com a tempestade. Um dos marinheiros me disse que eu no poderia ir ao convs por causa do Olho, mas no lhe dei a menor ateno.
	Pelo jeito faz muito tempo que voc age da mesma maneira  ela disse sorrindo.
	S pode ter sido isso. Foi a tempestade que me trouxe at aqui. Tudo na vida tem uma explicao, sra. Harper.  s procurarmos por ela. Entretanto, no pretendo mais sair pelos mares a bordo de uma galera.
	... isso eu acho que voc no vai conseguir, mesmo.
	J que sou um homem sozinho, sem famlia...
	Voc no tem famlia?
	Meus pais faleceram h cinco anos. Continuando, sra. Harper: J que no tenho ningum, estou pretendendo me estabelecer aqui na Amrica, no sculo vinte mesmo. Tenho certeza que serei capaz de sobreviver.
	Pelo jeito voc no tem outra opo. Ainda no inventaram nenhum tipo de mquina que levem as pessoas de volta ao passado. E j que teremos de conviver com a ideia de nunca mais voltar, acho que voc vai precisar de alguma transformaes.
	Transformaes?
	No pode continuar usando aquela roupa.
	Por qu?
	Ela chamaria muito a ateno das outras pessoas.
	 estranho. Minha roupa  discreta.
	No sculo dezenove, at pode ser. Mas aqui, iriam pensar que veio de outro planeta.

	Habitantes de outros planetas tambm esto visitando a Terra?
- No, Harry. No esto.  s uma maneira de dizer.
	Ento fale direito, mulher.
	No me chame mais de mulher! Entendeu?
	Mas voc  uma mulher.
	Quanto a isso no tenho a menor dvida. Mas essa maneira de voc dizer, soa muito agressivo.
- No estou querendo ser agressivo.
	Sei disso. Agora, Harry precisamos comprar roupas para voc. S que voc vai ficar aqui. No acho que j chegou a hora de sair a. Antes precisa se acostumar com o mundo moderno. Voc fica na minha casa assistindo televiso e eu vou fazer com pras. No quer comer o meu sanduche?
	Ser que no seria abuso da minha parte?
	No, pode comer. Antes de sair deixarei mais sanduches preparados.
	Parece que no como h sculos.
	Voc sabe fazer piadas. Quem sabe no encontra um em prego como comediante?
Antes de sair para fazer compras, Suzy lhe disse:
	Deixei os sanduches na pia. E pode ficar  vontade. Logo estarei de volta. E no me chame mais de sra. Harper.
	Quero lhe dizer, senhora...  Harry percebeu que de novo a estava chamando de senhora e interrompeu a frase.  No, no  assim: tentarei de novo. Quero lhe dizer, Suzy, que jamais esquecerei tudo o que est fazendo por mim. Serei para sempre um eterno criado.
	A frase melhorou, Harry, mas continua muito formal. Voc ainda tem muito que aprender.
No centro da cidade, alm das compras, Suzy passou na companhia telefnica e pediu que o telefone da casa de praia fosse ligado.
- Tudo bem com voc Harry?  ela perguntou assim que entrou.
Antes que ele respondesse, o telefone comeou a tocar.
	Eu sabia..Eu sabia que seria besteira mandar ligar o telefone. Agora estou perdida.
	Que barulho  esse?  Harry perguntou assustado.
	Pode ficar tranquilo que no  a cavalaria chegando. Depois eu lhe explico.  Ela atendeu  chamada. Era engano.
Suzy desligou o telefone, sentou-se prxima a Harry e explicou-lhe como funcionava o telefone.
	Ser que no  apenas uma brincadeira de sua parte, Suzy?
- De jeito nenhum. Pode acreditar. Daqui onde estamos podemos falar com qualquer lugar do mundo.
	Com a Inglaterra tambm?
	Com a Inglaterra, com a China, com o Japo... E por falar em Japo, preciso fazer uma ligao para l agora. Foi para isso que mandei a companhia ligar o telefone.  Ela se levantou e discou um nmero.
	No tem ningum em casa  ela disse aps mais umas trs tentativas e desligou o telefone.
	Como  que voc sabe?  Harry quis saber.
	Simples. Ningum atendeu  chamada.

Capitulo IV

Harry, olhava para o mar. Tudo o que lhe acontecera era totalmente inexplicvel, mas precisava se conformar com a situao. Pelo que pudera entender, nada o levaria de volta a 1813. Agora ele era um homem do sculo vinte e, se tivesse sorte, iria viver a passagem do milnio.
Suzy estava nadando e ele ainda no se conformava com a liberdade de costumes daquela poca. Como era que um homem e uma mulher poderiam ficar quase nus sem o menor constrangimento? Ele sabia que aos poucos iria se acostumar com essa nova realidade, mas por enquanto estava difcil.
Suzy deixou a gua e acenou-lhe.
	Uma Vnus moderna saindo dos mares  ele disse baixinho.  Nenhum artista, do passado ou do presente, poderia retratar uma cena to bonita... Uma cena nica...
Muitas coisas haviam acontecido desde que Suzy o salvara h cerca de duas semanas. Ele aprendera bastante, mas a coisa mais difcil ainda era ver Suzy naqueles trajes. Ou melhor: sempre que a via de biquini, ficava imaginando-a sem ele.
	Trinta e dois anos...
Quando Suzy lhe dissera que era essa a idade dela, Harry no acreditara. Em sua poca, uma mulher de trinta e dois era uma matrona, com marido e muitos filhos. Ou era uma solteirona, sem a menor perspectiva de vida, a no ser a espera da morte.
Mas Suzy, ainda era jovem, vibrante. No incio, por no conhecer outras mulheres do sculo vinte, Harry acreditara que aquele tratava-se de um fenmeno que s acontecera com ela. Mas depois de conhecer outras garotas na praia, percebera que uma mulher de trinta e dois anos do final do sculo vinte, no tinha nada a ver como as mulheres da mesma idade da sua poca. Harry acreditava que algo havia acontecido com as mulheres. Porm, aps certificar-se tambm da idade dos homens, desistiu de pensar na ideia. Todos eram aparentemente bem mais jovens, mais saudveis.
	A gua est morna, deliciosa  ela disse e sentou-se ao lado dele na esteira.
	Voc  uma pessoa que est muito ligada aos sentidos, no ? Sempre se refere ao sabor de tudo que pe na boca: se  um doce, comenta a delcia do acar, se  algo salgado fala do sabor do sal. Fala do cheiro do oceano, da sensao maravilhosa das ondas quebrando em seu corpo... s vezes tenho a impresso que ainda  uma criana.  Ele fechou o livro que linha nas mos. Ficar vendo Suzy nadando era melhor do que qualquer leitura.
	Quais so as suas outras impresses?  Suzy perguntou meio contrariada.  Sabe, Harry, detesto quando me trata com superioridade.
	Mas eu no a estava tratando com superioridade.
	 claro que estava. Voc tem que tentar mudar.
	Eu j mudei muito  ele se defendeu.
	No o suficiente. Voc tem que se esquecer de uma vez por todas de onde veio. A guerra terminou.
	Pelo que tenho visto na televiso, as guerras continuam. E essas so mais violentas do que aquelas que aconteciam no sculo passado. O Homem hoje pode destruir a Terra a qualquer momento. Isso na minha poca era inconcebvel.
	Sei... sei exatamente sobre o qu voc est falando. Tambm acho inconcebvel tudo isso, mas precisamos aprender conviver com essa realidade.
	No gosto dessa realidade. Ela  cruel demais.
	E quem foi que disse que eu gosto dessa realidade? Eu a detesto.
Harry, encantado, olhava para Suzy. Ela estava bem mais bronzeada do que o dia que ali chegara. E tinha um perfume delicioso. Ele ficou atento s gotas de gua que escorriam-lhe pelo corpo pelas curvas, pelos seios. Harry gostaria que Suzy no tivesse se sentado to perto dele. Tanta proximidade estava alterando-lhe a respirao.
Ela estremeceu.
	Est com frio?  Ele imediatamente pegou uma toalha e colocou-lhe sobre os ombros.
	Voc  gentil demais, sabia? E isso s vezes me deixa sufocada.
	Est se sentindo mal? No est conseguindo respirar?
"Com voc ao meu lado fica difcil", ela pensou. Mas em voz alta disse:
	No foi isso que eu quis dizer.
	Ento explique-me.

	Explicar-lhe-ei  ela brincou, mas Harry no percebeu a brincadeira.
	Estou aguardando.
	Voc est sempre atento s minhas necessidades, e eu no estou acostumada a isso. Quando digo que voc me sufoca, significa que fico constrangida com tanta amabilidade. Alm disso, voc me olha de uma maneira muito insinuante.
	 esse biquini  ele disse com sinceridade.
	O que tem o meu biquini?
	Para mim continua muito difcil me acostumar com uma mulher quase despida ao meu lado. Na minha poca, meus amigos e eu ficvamos esperando as mulheres descerem das carruagens para ver-lhes um pedacinho dos tornozelos. Isso se tivssemos sorte.
De repente Harry imaginou Suzy vestida como as mulheres do seu tempo. Ela ficaria muito bonita com um vestido longo de musselina e chapu na cabea... Aquela imagem de Suzy o excitava muito mais do que v-la ali ao lado de biquini.
Sabe, Harry  ela disse, interrompendo-lhe os pensamentos, justamente quando ele imaginava beijando-a no Hyde Park, em Londres , logo teremos que ir para Manhattan. S estou planejando ficar aqui at o fim do ms. Embora possa continuar fazendo as minhas revises daqui, marquei vrios compromissos para setembro. So compromissos sociais dos quais no posso escapar de jeito nenhum. Principalmente do jantar na casa do Wilbur.
	Wilbur? Quem  ele?
	J lhe falei sobre ele. Wilbur Langley  um dos diretores da editora para a qual eu trabalho.
	Agora estou recordando-me. Wilbur  um dos homens que voc acredita que venha poder nos ajudar.
	 exatamente esse.
	E como o diretor de uma editora poderia nos ajudar?
	Voc pergunta isso porque no conhece Wilbur. Ele sabe tudo a respeito de tudo, d para me entender?
' Mais ou menos.
	Wilbur conhece todo mundo, tem inmeros contatos.  um empresrio de verdade. Alm de escrever muito bem, tem uma mente aberta. Ele  uma mistura de cavalheiro com Phinea T. Barnun.
	Sobre esse voc nunca me falou.
	Phinea T. Barnun era um showman. Entende? Uma espcie de apresentador de circo. Aquele que anuncia as atraes.
	Acho que entendi: alm de ser um dos diretores da revista, ele tambm tem um circo.
	No  nada disso.  Ela riu passando as mos pelos cabelos.  Acho que no expliquei direito.
	No explicou mesmo.
	Me desculpe. s vezes esqueo que  muito difcil para voc entender a linguagem da nossa poca. Mas vou tentar explicar: Wilbur  como... como Wilbur.
Harry a fitava completamente confuso.
	Wilbur  um homem maravilhoso  ela continuou.  Ele tem setenta anos e ningum, ningum diz que tem essa idade.
Nunca conheci ningum que tenha ganhado tanto dinheiro na vida. Hoje em dia, Wilbur est meio afastado dos negcios e quem cuida de tudo  o seu ex-genro, Daniel Quin. Voc vai adorar Daniel e sua esposa Joey. Joey trabalhava como motorista de Daniel. A os dois se apaixonaram e se casaram. Hoje Joey  uma escritora muito famosa. Os dois tm quatro filhos maravilhosos e...  Suzy olhou para Harry e viu que ele no estava entendendo nada.  Esquea, esquea tudo o que lhe disse. O que interessa  que fique sabendo que Wilbur  um homem maravilhoso, protege os artistas, tem muitos contatos no mundo dos negcios e das finanas, adora uma boa comida, se veste muitssimo bem e at hoje existem inmeras mulheres apaixonadas por ele. Se quer saber, ele  to ecltico, que viveria muito bem na Inglaterra de 1813.
	Isso parece-me muito bom. Apesar de sentir-me um tanto intimidado, gostaria de conhec-lo.  Harry se levantou.  Quando  que eu posso encontr-lo?
	Encontr-lo? Voc encontrar-se com Wilbur? Acho que tomou muito sol, Harry.  Suzy deu uma gargalhada.  Deus! S me faltava essa. Se depender de mim, voc nunca ir se encontrar com ele.
Harry voltou a sentar-se.
	O que foi?
	Acho que estou mais confuso do que nunca. Quero voltar para casa.
	Por mim, tudo bem.
Quando j estavam na cozinha, Harry quis saber:
	Por que no posso encontrar-me com Wilbur? Tem medo que eu cometa algum erro? Ningum suspeitou de nada ontem  noite quando levou-me quele restaurante.
	No foi bem assim... Voc, em pleno restaurante self-service, exigir que lhe levassem na mesa algo para lavar os dedos, no  demais? Acho que exagerou.
	Tem razo, mas aquilo foi uma pequena distrao.
	Pequena distrao? Ser que se lembra do espanto do pessoal do restaurante quando gritou que queria um lava-dedos? E aquele histria de no querer limpar a boca em guardanapo de papel?
	Estou acostumado com guardanapos de linho.
	 o que imagino...
	Tenho feito de tudo para aprender e no aborrec-la, voc  testemunha disso.
	Tenho que admitir que voc se esfora muito.
	Por que ento eu no posso encontrar-me com Wilbur? Provavelmente nos daremos muito bem.
	S se for em uma outra vida. Nesta, jamais! Acredite em mim, Harry, Wilbur tem que ficar a quilmetros de distncia de voc. Contarei a ele a mesma histria que contei a Courtney.
	Courtney? Quem  esse Courtney?
	Courtney Richardson, a minha amiga escritora que est no Japo com o marido. Lembra que uma vez telefonei para ela e disse que tinha comeado escrever um livro sobre um homem que  vinha do passado e estava querendo saber como nessas circunstncias o meu personagem faria para se legalizar aqui no pas?
	Lembro-me, sim.
Pois ento, contarei a mesma histria a Wilbur. A Courtney, apesar de no saber me informar nada a respeito, acreditou di-reitinho na minha histria. Tenho certeza que Wilbur tambm vai acreditar.
	Verdade, querida? E eu que pensei que ainda fosse uma grande raposa, que nada me escapasse!
Suzy voltou-se assustada para a porta da cozinha que havia deixado aberta e exclamou:
	Wilbur querido! Quem bom ver voc aqui!  Ela foi abra-lo, mas parou desconfiada.  O que  exatamente que voc est fazendo aqui?
Harry, que assistia a tudo em silncio, estava impressionado com a altura do visitante, com a maneira dele falar e sorrir e; principalmente, com a maneira que agora ele beijava Suzy no rosto.
	Estou aqui por que a nossa amiga em comum, Courtney, me ligou de Tquio e me disse que a amiga dela, Suzy Harper, parece que anda de novo com umas ideias malucas na cabea. Como sempre Courtney ficou muito preocupada com voc e me pediu ajuda. E eu, que adoro Ocean City, vim para c.
Harry, percebendo que Suzy poderia entrar em pnico a qualquer momento, resolveu intervir:
	Sr. Langley,  um prazer incomensurvel conhec-lo. Gostaria de apresentar-me: meu nome  Wilde. Harry Wilde. Sou ingls e estou aqui em frias. Queira perdoar-me pelos trajes que estou usando. No gostaria de encaminhar-se at  saia? A sra. O'Reilly, a criada de Suzanne, no est no momento. Aps descobrir que um esprito de um familiar da sra. 0'Connel a esta' perturbando, a boa senhora tem passado a maior parte do tempo com a vizinha. Mas tenho certeza que Suzanne nos servir um ch. Suzanne?
	Essa no...  Suzy murmurou e fingindo-se de desentendida, olhou pra Harry e perguntou:  O que foi que disse?
	Ele disse que agora voc deveria ir tomar um banho, escolher o seu melhor vestido para depois pedirmos ao meu motorista que nos leve a um belo restaurante em Atlantic City. Caso no tenha notado, Suzy, est com o corpo coberto de areia. Harry fica comigo na sala depois que fizermos um ch sem a assistncia da sua criada. Apresse-se, querida. Tenho certeza que Harry e eu nos daremos muito bem. Ele pode tomar banho mais tarde enquanto voc e eu ficamos fofocando um pouco.
	No  Suzy protestou segurando o brao de Harry como se com aquele gesto pudesse proteg-lo. Tinha medo que, de repente, Harry resolvesse contar que era um visitante do sculo dezenove.  No ligue muito para o que Harry disse, Wilbur. Sabe...
	Suzanne, faa o que o sr. Langley sugeriu. Ficaremos bem  Harry pediu. Apesar de estar com muita pena de Suzy, ele tinha muita vontade de ficar a ss com Wilbur. A conversa que teria com o visitante seria um teste, um teste para ver se j se adaptara ao sculo vinte.
Alm disso, Harry queria saber o nome do alfaiate de Wilbur. S assim se sentiria reconciliado consigo mesmo. J no suportava a maneira extravagante das pessoas de Ocean City se vestirem.
	Tudo bem  Suzy finalmente concordou, fazendo de tudo para no comear chorar de aflio.  Mas no se atreva a contar nada a esse moo a.  Ela deu uma olhadela para Wilbur e concluiu a frase:  se contar a ele sobre ns, amanh Manhattan inteira estar sabendo.
Essa foi a melhor maneira que Suzy conseguiu para pedir a Harry que no contasse a Wilbur que era um viajante do tempo. Suzy s no sabia se ele entendera a mensagem.
	Ah, quer dizer que presencio o desabrochar de um novo romance.  Eles se encaminhavam para a sala.  Isso  muito intrigante. Nunca imaginei Suzy namorando um ingls. Com um corredor de motocicleta, com um acrobata, ou mesmo com um cantor de rock, no  difcil imaginar. Mas com um ingls...  uma grande surpresa...
Harry fazia de tudo pra manter-se em silncio. Precisava pensar direito antes de falar. Qualquer erro poria tudo a perder. Pelo jeito at ali tudo havia transcorrido normalmente.
Assim que sentou-se, Wilbur disse:
	Acho que no lugar do ch vou querer um licor. Poderia me servir um licor, Suzy?  incrvel como o ar da praia me faz bem. Estou pensando em me mudar definitivamente para o litoral.
	Acho que faz bem, Wilbur. O litoral  muito melhor. A gente passa o dia inteiro sem pensar em nada.
	Mas pelo jeito voc andou pensando muito por aqui.
	 verdade.
	Pelo que soube, est at pensando em escrever um livro. Logo voc que um dia me disse que a literatura estava morta.
	A gente muda, Wilbur.
	Se muda... Mas voc, Suzy, uma artista performtica, nunca pensei que um dia pudesse se interessar pela literatura.
	Adoro as minhas performances, mas tenho que pensar na sobrevivncia.
	O que ganha com as revises no est dando para sobre viver?  Wilbur quis saber.

	Est, mas s vezes o dinheiro  pouco...
Harry resolveu servir o licor.
	Eu no vou beber, Harry.
- Certo.  Depois de colocar a bebida em dois clices, ele disse:
	Sr. Langley, pelo que posso depreender, o senhor no acredita na capacidade de Suzanne como escritora.
	Voc depreendeu errado, meu filho  Wilbur disse com uma leve ironia na voz aps tomar um gole do licor.  Suzy  uma mulher muito capaz. E quando pe uma ideia na cabea, ningum consegue demov-la. No sei se ela lhe contou, mas uma vez Suzy pintou os cabelos e o corpo de verde e ficou um dia inteirinho fingindo que era rvore l no Central Park.
	 verdade, Suzanne?  Harry perguntou espantado.
	Mas  claro que  verdade  ela respondeu orgulhosa.  Esto acabando com a natureza e algum precisa protestar, tomar alguma providncia. Essa  a funo do artista: intervir! Fazer com que as pessoas prestem ateno nas coisas.
	Mas voltando ao assunto do livro: pelo que Courtney me contou, ele se passa na praia.
	Exatamente.
	Adoraria ver esse livro.  Olhando para Harry, Wilbur perguntou:  Vocs tambm se conheceram na praia? Ocean City  um lugar muito romntico. Quando era mais moo vinha para c com as minhas namoradas.
	De fato, sr. Langley, Suzanne e eu nos conhecemos na praia. E foi um encontro deveras romntico.
	Deveras romntico? Mas que maravilha... Suzy sempre vive situaes muito romnticas. E situaes estranhas tambm. Ela no consegue evit-las. Coisas estranhas acontecem sem que ela queira. Seria voc uma dessas coisas estranhas, Harry?
	Eu? Uma coisa estranha, sr. Langley?  Harry tentava pensar numa resposta.  Em que sentido?
	Um dia a gente conversa melhor sobre esse assunto, no ?  Wilbur sorriu amigvel.
	Se o senhor prefere assim...
	Eu prefiro, sim. E por favor me chame de Wilbur, como todo mundo faz.
	Certo, Wilbur.  Harry percebeu que o americano estava tentando deix-lo  vontade e sentiu-se mais tranquilo.  Voc mencionou Atlantic City. Outro dia Suzy tambm me falou a respeito desta cidade. Disse-me que tem muito jogo por l. Voc joga Wilbur?
	Sou um editor, Harry.
	Vocs dois me desculpem, mas eu vou tomar um banho  Suzy saiu da sala apavorada.
	Acho que no entendeu a minha pergunta, Wilbur.
	Entendi, sim, Harry. E respondi que sou um editor. Na minha humilde opinio, isso tambm  um jogo. Acreditar na ideia de algum e transform-la em um sucesso, no deixa de ser uma espcie de jogo. E eu adoro fico. Voc l muito, Harry? Harry fechou os olhos para tentar lembrar-se do nome de um autor que vira dando uma entrevista na televiso. Afinal, no podia citar Shakespeare que era o que mais gostava.
	Grisham!  isso!  Harry exclamou feliz ao lembrar-se do nome do autor.  John Grisham! Ele  muito interessante, no acha? E alm disso faz muito sucesso.
	Muito  Wilbur disse e tomou mais um gole de licor.  Embora eu prefira um outro tipo de fico. Voc, como John Grisham, tambm  um advogado?
Harry se atrapalhou com a pergunta e respondeu de imediato:
	No. Embora ainda no tenha tido a oportunidade de publicar nada, sou um escritor.
	Um escritor? Mas que maravilha. Voc escreve romances? Acho que agora estou entendendo tudo... Talvez seja voc quem esteja pretendendo escrever sobre um homem que vem do passado. Isso faz muito mais sentido do que pensar que Suzy resolveu de repente entrar no mundo da fico.
Harry teve a sensao que cara numa armadilha.
	No estou pretendendo usar Suzy para ajudar-me com a minha carreira. Sou suficientemente capaz de fazer isso sozinho.
	Meu rapaz, espero que no tenha ficado ofendido. Acontece que  uma grande coincidncia encontr-lo aqui morando com Suzy. Ela nunca se interessou por fico. Se quer mesmo saber, a vida dela j  uma grande fico. Suzy  uma artista arrojada e est sculos na nossa frente.
	Sculos?
	Sculos, milnios... Ela tem ideias maravilhosas. Porm como todo grande artista, quase ningum entende o trabalho que faz. E Suzy nunca abriu mo de suas convices. Prefere ganhar pouco fazendo revises, a ganhar uma fortuna executando trabalhos que no acredita.
	Cheguei!  Suzy disse entrando na sala.
	Voc est linda, querida  Wilbur disse.
	Gostou mesmo? Fui eu mesma quem fiz esse vestido.
Harry olhava para Suzy com os olhos arregalados. Como ela podia vestir uma roupa totalmente transparente.
Pressentindo que Harry fosse fazer algum comentrio inconveniente, ela disse:
- O chuveiro est lhe esperando. V.
Em frente ao espelho do toalete do restaurante em Atlantic City, Suzy estava muito preocupada. Achava que no deveria ter feito a Harry aquela recomendao.
	No se atreva a contar nada a esse moo a! Se contar a ele sobre ns, amanh Manhattan inteira estar sabendo!  ela repetiu a frase que tinha dito a Harry na frente de Wilbur.  Voc foi longe demais Suzy Harper! Deveria ter arrumado uma outra maneira para dizer a Harry que Wilbur era perigoso e muito sagaz. E agora no adianta ficar me olhando com essa cara de ar rependimento. Voc age sem pensar e, muitas vezes pensa sem agir! 
Uma mulher que entrou no toalete e assistiu parte daquela conversa, perguntou a Suzy:
	Est precisando de alguma coisa?
	No, obrigada. S estou tendo uma conversinha particular com aquela mulher ali no espelho.
A mulher, meio apreensiva, se afastou.
	Viu s? Viu s? Depois no gosta que chamem voc de maluca!  Suzy voltou a falar com o espelho.
Suzy foi at a saleta que ficava na entrada do toalete e sentou-se numa poltrona.
Ela precisa aprender a ficar de boca fechada. Mas de todas as besteiras que j dissera na vida, acreditava que aquela tinha sido a pior. E logo para quem! Para Wilbur Langley!
Durante o trajeto at Atlantic City e no transcorrer do jantar, Wilbur a fitara de maneira estranha. Era como se ele estivesse querendo congratul-la por pelo menos uma vez na vida estar namorando um homem normal, e ao mesmo tempo indagasse se vivia algum problema muito srio.
Como, como Wilbur ousava pensar que ela pudesse estar vivendo algum problema? S porque estava abrigando um homem com mais de duzentos anos? E isso l era problema? A nica coisa que queria era conseguir uma identidade para um homem que viera do passado. Apenas isso. E precisava desta identidade antes que o servio de imigrao o apanhasse. Iriam deport-lo para onde? Para a Inglaterra? Para a Inglaterra do incio do sculo dezenove?
E se estivesse fazendo tudo por um sentimento bem mais profundo do que apenas solidariedade? Bem, se estivesse agindo dessa maneira, o problema era apenas dela.
Suzy ficou olhando para o teto e sentiu-se muito triste. Harry Wilde a via apenas como a pessoa que o salvara, no como uma mulher.
De acordo com a sociedade da qual Harry viera, ela no passava de uma velha e no servia para mais nada. Era uma pena, mas a verdade precisava ser encarada.
	Mas que sociedadezinha mais repressora! J imaginou? Velha aos trinta e dois anos? Se fosse possvel, eu embarcaria nesse tal de Olho que o Harry falou e daria uma chegada por l. Diria umas verdades ao pessoal daquela poca! Se fosse por eles eu nem estaria neste mundo! Minha me tinha trinta e cinco anos quando nasci.
E por qu Wilbur tivera que vir verificar o que estava acontecendo? Apenas por causa do telefonema que fizera a Courtney? Ser que eles pensavam que era incapaz de cuidar da prpria vida? Ser que pensaram que precisava de ajuda?
	Wilbur poderia pelo menos ter avisado que viria para c. Era s dar um telefonema. Se ele tivesse avisado teria escondido Harry. No sei onde, mas teria escondido. Mas no: ele apareceu de surpresa! E parece que est adorando a situao. E o Harry? Meu Deus... a maneira que ele fala  muito estranha. Esses dias todos que estamos juntos tenho tentado ensin-lo a falar de um jeito mais normal... s vezes ele consegue, mas basta ficar um pouco nervoso para voltar a ser o homem das cavernas.
Batidas na porta do toalete a fizeram voltar  realidade.
	Suzy? Voc est a?  A voz era do Wilbur.
"No! Estou em Nova York", ela teve vontade de responder.
	Suzy, o que est acontecendo?  As batidas ficaram mais fortes.
Ela se levantou, ps um falso sorriso nos lbios e abriu a porta.
	Felizmente voc est bem, querida  Wilbur disse.
	Estava apenas retocando a maquilagem.
	Meia hora para retocar a maquilagem? No acha que  muito tempo?
	Eu no acho. Ela ficou boa?
	Como sempre voc est linda.
	Obrigada.
	Suzy, Wilbur nos convidou para irmos at o cassino.
"E agora mais essa! O meu protegido est querendo visitar um cassino. Ser que ele pensa que o meu dinheiro  capim? Que nasce nos campos com a maior facilidade?", ela pensou aflita.
	Como ? Vamos?  Wilbur quis saber.
	Mas  claro que sim!
	Vou adorar o passeio  Harry sorriu.
"Mas que sorriso! Que dentes! Que charme! Com esse palet esporte azul, camisa branca, calas pretas e com esses cabelos compridos... Harry est simplesmente irresistvel. Se ele no parar de sorrir para mim, eu... Eu..."
	Eu juro que no me responsabilizo pelos meus atos  ela disse em voz alta, completando os pensamentos.
	O que foi que falou, querida?  Wilbur quis saber.
	Nada de importante. Mas me diga: aonde fica o cassino?
	Aqui mesmo neste prdio. Vamos pegar o elevador.
	Vou apenas colocar algumas moedas na mquina  Suzy comentou.
	Moedas em mquinas? E o que acontece?
"Ele poderia ficar calado", Suzy j comeava entrar em pnico. 
Se tiver sorte pode ganhar uma fortuna  Wilbur disse casualmente.  Harry e eu decidimos ir para uma mesa de bacar.
 Uma mesa de bacar?
	Por que o espanto?  Os trs entraram no elevador.
	Eu no sei jogar bacar  Suzy disse.
	Harry me disse que joga bacar muito bem.
O elevador parou no trreo.
	Me aguardem aqui na entrada do cassino. Vou comprar umas ficha para ns.
Assim que ficaram sozinhos, Suzy explodiu:
	Voc enlouqueceu, Harry Wilde? Por que quis vir para o cassino? Temos que nos livrar urgentemente de Wilbur. Ele pode descobrir tudo!
	Usando um termo da sua poca, Suzy, acho que est ficando paranica!
	Eu? Paranica? Se existe algum paranico aqui, esse algum  voc!
	Mas tudo est transcorrendo de uma maneira muito agradvel.
	Para voc, Harry Wilde! Para voc!
	At agora tenho me comportado muito bem. Quando entrei naquele carro do Wilbur que ele chama de limusine, no fiz nenhum comentrio. E pode ter certeza que fiquei espantado com ele. Nunca imaginei uma carro com televiso, telefone, bebidas..Pelo jeito vocs americanos nunca conseguem se afastar do te lefone, nem da televiso...
	Agora arrumei um crtico de costumes da nossa poca.
	Tenho certeza que me sa muito bem at agora.

	Harry, sinceramente, no sei at onde vou suportar esta situao.
	Mas durante o jantar eu tambm me comportei muito bem.
	Harry, voc tem ideia do que perguntou quando viu as luzes dos cassinos aqui em Atlantic City?
	No consigo recordar-me.
	Pois eu farei com que se recorde: voc simplesmente perguntou de quantos lampies eles precisariam para os luminosos brilharem daquele jeito.
	E vocs no me responderam. At agora eu no fiquei sabendo.
	Ah, essa no!  Suzy exclamou com impacincia.
	Por que voc est assim to aflita?
	Harry, lampio praticamente  coisa do sculo passado, Aquilo que voc viu nos luminosos so lmpadas. Lmpadas! Eletricidade! Entendeu?
	... estou vendo que aquela pergunta foi totalmente inapropriada. Mas prometo que no cometerei mais nenhum engano. Agora sinto-me em casa. Jogava muito em Londres e tenho certeza que ganharei um bom dinheiro. A poderei pagar tudo o que fez por mim at agora. Tambm pagarei esse dinheiro que Wilbur est me emprestando.
	Mas voc tambm pode perder.
	No perderei, quanto a isso pode ficar tranquila.  Harry falava com muita segurana. De repente, ele se aproximou de Suzy e a beijou na boca.
	Harry? Voc viu o que acabou de fazer?
	Ver eu no vi, mas posso lhe assegurar que senti e gostei muito.
	Por que voc me beijou? Como pde fazer isso comigo?
	S fiz o que todos americanos fazem. Vejo todo mundo se beijando.
	Mas isso no  justo!
	No  justo? E voc acha justo sair assim com essa roupa transparente?
	Essa roupa est muito bonita.
	No disse que ela no estava bonita. Apenas perguntei se acha justo us-la?
Suzy ficou meio atnita e voltou a perguntar:
	Por que voc me beijou?
	Bem, Suzanne, entre outros motivos, porque comeo a apreciar este gosto dos americanos por mulheres mais velhas...

Capitulo V

Da porta da garagem, Suzy e Harry acenavam para Wilbur.
Assim que a limusine desapareceu dentro da noite, Suzy mudou de comportamento: o sorriso desapareceu, retirou o brao de Harry de sobre os seu ombros e entrou.
Harry correu atrs dela, mas no foi rpido o suficiente: a porta quase bateu em sua cara.
	Ser que ela quer que eu durma na praia?
Harry abriu a porta e foi encontr-la na sala. Assim que a viu, ele a abraou.
	Tire as suas mos de cima de mim!  ela gritou.
	De jeito nenhum! Voc vai explicar-me o que aconteceu.
Desde Atlantic City que est me olhando de uma maneira muito diferente. No vou deix-la trancar-se em seus aposentos sem a menor explicao.
	A gente diz quarto, Harry, e no aposentos!
	Quarto ou aposentos para mim agora tanto faz. Quero saber o que est acontecendo.
	Voc quer saber por que estou com raiva, no ? Pois eu lhe direi.
	Ento, diga!
	Eu vou dizer!  Suzy andava de um lado para o outro.
 Pode ficar sossegado que eu vou dizer!
	Ento diga, mulher!
	J lhe disse para no me chamar de mulher!
	Falei sem querer. E a fora do hbito.
	Mas que belo hbitos vocs tinham.
	Esquea os nossos hbitos e diga-me o motivo que a deixou to irada.
	Certo. Eu estou irada. E vou lhe dizer o porqu.
	Sou todo ouvidos.
	Voc ganhou mais de seis mil dlares, seu idiota!  Ela estava inconformada.
	E isso  to ruim assim?  Harry sorriu satisfeito.
	Claro que ! Ou melhor: no, no ! E tire esse ar de felicidade do rosto!
	No estou entendendo.
	Voc nunca vai entender. Nunca.
	No conheo direito o dinheiro americano, Suzy.
	No  s o nosso dinheiro que voc no conhece. Tem muitas coisas que voc no conhece, Harry. Muitas coisas!
	Sabe o que aconteceria se Wilbur no dissesse que ele havia ganho todo aquele dinheiro?
	No, no sei!
	Voc precisaria ter prestado contas ao LR. Era isso que teria acontecido. Iriam pedir documentos. E voc, Harry Wilde, no tem documentos! Ou tem?
	Voc sabe que eu no tenho.
	Ainda bem que Wilbur cuidou de tudo. Mas depois do que aconteceu no cassino, ele tem toda razo para desconfiar que algo de muito estranho est acontecendo nesta casa.
	Aqui no est acontecendo nada de estranho.
	Ah, no?  Suzy ps as mos na cintura e o encarou.
	No, no est.
	E voc acha muito normal algum receber um visitante do sculo dezenove.
	Eu, particularmente, acho que no. Mas com essa sociedade to adiantada, no sei se para os americanos  to anormal assim.
	E ele ainda quer fazer piada...
	No estou fazendo piada, Suzy.
	J lhe disse uma vez que ainda no inventaram viagens atravs do tempo.
	Algum deve ter inventado, caso contrrio eu no estaria aqui.
	Por qu? Por que eu tive que ligar para o Japo? Quando eu me encontrar com A Courtney, teremos uma conversa muito sria. Ela no podia ter pedido ao Wilbur para vir at aqui e ver o que estava acontecendo. Por que todos acham que precisam me ajudar, cuidar de mim? Ser que pensam que no sei tomar conta de mim mesma? E voc, Harry, por favor no se atreva a responder essas minhas duas ltimas perguntas.
	Mas eu...
	Se est pretendendo dormir aqui, no responda  duas ltimas perguntas!
	Ento, responda-me voc uma pergunta.
	Vamos l: qual  a pergunta agora?
	O que significa I.R.?
	Claro, mas  claro que voc no poderia saber. Significa imposto de renda.

	Sabia que j tinha ouvido falar nesta sigla antes. Agora estou lembrado. Foi na televiso.
	Ento, no vou precisar lhe explicar como funciona.
	No vai, no. Tenha uma memria excelente.
	Viu s o risco que correu?
	... voc tem razo. Mas quero reembolsar a Wilbur tudo o que ele pagou para mim.
	Quanto a isso eu no tenho a menor dvida: vai ter que pagar mesmo!	
	Eu sempre honro os meus compromissos.
	 mesmo?  Suzy perguntou com ironia.
	Sempre  ele disse com seriedade.
	Agora me diga, Harry Wilde, como  que vai fazer para pagar o Wilbur? Vai lhe mandar um cheque? Voc no tem talo de cheque, Harry. Tambm no tem conta bancria. E sabe por qu? Vou lhe dizer: voc no existe!  isso! Voc no existe!
Suzy sentou-se no sof e abraou uma almofada.
	Mas nesse exato momento, o fato de no existir  o nosso problema menor. Wilbur saiu daqui muito, muito desconfiado.
	Eu acredito que no.
	Mas  claro que ele saiu daqui desconfiado! Ele sabe que voc est no pas ilegalmente. Ele foi gentil, mas vai ficar alerta.
	Alerta?
	Exatamente. Vai fingir que no percebeu nada de errado com voc, mas estar alerta. Pode contar com isso. E pode contar tambm que ele vai voltar. Neste instante ele j pode at estar ligando para a polcia para certificar-se se eu no resolvi abrigar um foragido na minha casa. Wilbur  imprevisvel.
	Eu o achei muito agradvel.
	Mas  claro que achou.
	Estou comeando a acreditar que voc est mesmo parani...
	No repita essa palavra! Se existe algum paranico aqui, esse algum  voc! No fui eu quem resolveu fazer uma viagenzinha pelo tnel do tempo. Estava aqui, sossegada, ia pegar madeira na praia quando apareceu voc sabe-se l de onde!
	J lhe disse de onde eu vim.
	Mas voc pode estar mentindo!
	Nunca menti para voc!
	J ouvi essa frase inmeras vezes. Pelo jeito todos os homens a tem na ponta da lngua.
Harry tocou a prpria lngua como se estivesse  procura de algo.
	Pare com isso, Harry!
	Eu no tenho nada na ponta da minha lngua. E que histria  essa de outros homens?
	No, no vou falar agora sobre os meus namorados.
	Por qu?
	Eu s entrei em fria, Harry. S entrei em fria! 
	Voc o qu?
	Isso  gria. Entrar em fria significa que eu nunca consegui ter um bom relacionamento com algum. Meus relacionamentos sempre foram difceis e atribulados. Deu para entender agora?
	Deu.  Ele tambm sentou-se no sof.
	Fale mais a respeito dos seus namorados.
	No, no vale a pena. Estou preocupada com Wilbur.
	Wilbur nunca a teria deixado sozinha se achasse que estava correndo perigo. E ele partiu para Manhattan.
	Quem disse a voc que ele partiu para Manhattan? Na certa ele agora est se hospedando num hotel cinco estrelas. Harry... Sinto muito, mas estamos com problemas.  Suzy encostou a cabea nos ombros fortes.
A possibilidade de estarem realmente com problemas deixou Harry muito perturbado. Porm, a cabea de Suzy recostada em seu ombro o perturbava muito mais.
	No vou deixar que o episdio vivido com Wilbur a deixe to desconsertada, Suzy. Partirei imediatamente.
Chocada e colocando-lhe a mo sobre o peito, Suzy perguntou:
	Partir? Mas que ideia  essa? Voc no pode partir. Para onde pretende ir? Para a C.V.P.S.D?
	Para onde?
	Para a Casa dos Viajantes Provenientes do Sculo Dezenove.  Suzy balanou a cabea.  Harry, por favor, no seja ridculo.
Harry ficou feliz. Suzy no queria que partisse e tambm estava sentada bem junto a ele.
	Voc quer que eu fique?  isso?
	No adianta ficar to entusiasmado  Suzy disse com firmeza, embora no fizesse meno de afastar-se dele.  Eu adoro animais de estimaes.
	Verdade?  Harry no se ofendeu com as palavras de Suzy.  Voc tambm paga as contas dele?
	Por enquanto no cuidei de nenhum animalzinho endividado.  Ela sorriu.  Dou comida a eles e depois os mando embora. E era exatamente isso que eu deveria ter feito com voc.
	Quer dizer, ento, que voc alimenta os animais... Por falar nisso, estou sentindo muita fome  Ele comeou a mordiscar-lhe a orelha.  Ela est deliciosa...
	Harry! Pare com isso!  Suzy protestou. Mas ao invs de afastar-se, ela reclinou mais a cabea e ofereceu-lhe o pescoo.
Mesmo assim continuou protestando:  Voc precisa parar, Harry... No pode continuar fazendo isso.
Harry, no se sentindo nem um pouco rejeitado, comeou a beijar-lhe o pescoo. Mas o que ele queria mesmo era beijar-lhe os lbios carnudos.
Para Harry os lbios de Suzy tinham a cor de cereja madura.
Ser que eles tambm tinham o sabor de cereja?, ele se perguntava. Ou ser que os lbios de Suzy tinham o sabor do infinito, o sabor de coisas proibidas? O beijo rpido que lhe dera no cassino no tinha dado para sentir direito.
Ele, por fim, decidiu descobrir.
Harry fitou Suzy intensamente e tocou-lhe o rosto de leve.
	Harry? O que est pretendendo fazer? No ouse fazer o que est pensando. Sou muito velha para voc, est lembrado?
Ele continuou olhando para Suzy e sorriu. Definitivamente adorava aquela boca.
	Andei pensando muito neste assunto... Tenho exatamente duzentos e dezesseis anos, portanto no pode ser mais velha que eu. 
	Bem, duzentos e dezesseis anos  uma idade um tanto avanada. Eu, sim, sou muito nova para voc.
	No acho que seja muito nova para mim, Suzy. Mas acho que voc fala demais  ele disse baixinho antes de beij-la.
Harry no sabia se o desejo forte que sentiu era por ter ficado mais de dois meses no mar, se era pelo fato de ter ficado cento e oitenta e um anos sem ver uma mulher ou se era por estar beijando Suzy Harper.
Era impossvel saber o que o levava a sentir-se to excitado. Se pudesse, continuaria beijando Suzy pelo resto de sua vida.
T-la ali em seus braos era algo divino. Suzy era totalmente diferente das mulheres que conhecia. Ela era suave, terna e parecia que tambm estava gostando muito do beijo.
O telefone tocou.
	Ignore-o  Harry disse sem afastar os lbios dos dela.
	No posso, deve ser Wilbur.
	Como voc sabe que  ele?  Harry quis saber.

	E quem mais poderia ser?
O telefone continuava tocando.
	Aquela sua amiga que est no Japo.

	No, ela no ligaria para c.  Suzy livrou-se do abrao de Harry e atendeu o telefone.
	 Wilbur  ela disse, tapando o bocal do telefone e em seguida ficou em silncio, apenas ouvindo.
	Mas isso  muita gentileza de sua parte, Wilbur  ela finalmente comentou.  O qu? Quer dizer que atualmente eles no esto alugando os apartamentos? S vendendo? Acho que seria maravilhoso se pensasse na ideia seriamente. Claro, mas  claro que eu conheo o lugar.  uma construo muito bonita.  mesmo? Quer dizer ento que os apartamentos so mobiliados?  Suzy ficou em silncio por mais alguns instantes e depois continuou:  O qu? Voc quer tomar o caf da manh s comigo? Sei... est querendo discutir o problema de Harry... S no estou entendendo que problema  esse, Wilbur. Sei... Sei... Tudo bem. Acho que voc est sendo meio inconveniente, mas devo admitir que Harry est, sim, com problemas de documentos. Tudo bem, amanh a gente se v.
	O que ele disse?  Harry quis saber assim que Suzy desligou o telefone.
	Ele vai nos dizer como conseguir uma identidade para voc. No precisaremos da ajuda de ningum. Faremos tudo sozinhos. Ele disse tambm que...
	Como Wilbur sabe que sou um viajante do tempo? -Harry a interrompeu ansioso.
	Isso ele no sabe. Wilbur simplesmente acredita que voc entrou no pas ilegalmente e resolveu lhe ajudar. Parece que Wilbur gostou de voc e o achou muito bom e honesto.
	E s porque ele me achou bom e honesto, resolveu agir de maneira ilegal para me ajudar?
	Sabia que agora est falando como um homem do sculo vinte?
	Aos poucos eu vou aprendendo.
Suzy dirigiu-se para o quarto. Harry a seguiu preocupado. Alguma coisa naquela histria toda estava soando de maneira falsa.
	Voc no me respondeu a pergunta que fiz. E tenho mais uma outra dvida: por que um homem que diz preocupar-se com voc sugere que infrinja a lei? Por qu?
	No sei lhe responder a nenhuma das duas perguntas. Mas estou achando que Wilbur est ficando meio senil. Talvez seja isso. Cansado de ser um homem de negcios, cansado de ganhar dinheiro, ele resolveu agora infringir a lei para se divertir um pouco. S pode ser isso.  Suzy parou na porta do quarto e voltou-se.
Harry mais uma vez olhou para aquela boca que acabara de beijar e no pde deixar de compar-la a uma cereja. Aquele telefonema no poderia ter interrompido um beijo to maravilhoso! Agora, como fazer para continuar o que haviam comeado na sala? A resposta veio rpida:
	Boa noite, Harry. Durma bem.  Suzy fechou a porta e em seguida a trancou.
Frustrado, Harry foi para o quarto que estava ocupando.
Mesmo para Nova Jersey, aquele final de agosto estava muito quente. Suzy adoraria ter levado uma embalagem de isopor com muito gelo dentro e vrias garrafas de ch. Tambm poderia ter levado um cantil cheio d'gua. E um mapa. Isso sem dizer de um bom repelente para insetos. O local estava infestado de insetos de todos os tipos e tamanhos.
Aquele era o terceiro cemitrio que ela e Harry checavam e parecia que de nada iria adiantar. Na certa, Harry logo iria querer voltar para o quarto e depois partir para a checagem de mais um cemitrio. E tudo isso s porque Harry havia colocado uma ideia extravagante na cabea, uma ideia que ia deix-lo com muita dor no pescoo!
	Por mais maluca que eu seja, no acredito que esteja fazendo isso!  ela exclamou, parando na sombra de uma rvore e voltando-se para olhar o seu querido visitante do sculo dezenove.
 Achamos um interessante no primeiro cemitrio, dois no segundo. Qual  o problema, Harry? Por que voc no se d por satisfeito?
Harry abaixava-se para ler as inscries de uma outra lpide.
"A cada dia ele fica mais bonito. Essa cor de pele est de um dourado lindo. E para um homem que detesta roupas informais, Harry at que se saiu muito bem. Est at parecendo algum que foi criado aqui: um verdadeiro homem do mar. Mas se um dia ousar cortar esses cabelos maravilhosos, no vou gostar nada, nada..."
Porm ao contrrio do que Wilbur pensara, ela no estava apaixonada por ele. Em momentos como esses, Suzy sentia que gostava muito do seu hspede. Amar? Jamais!
	O nome tem que ser exatamente o mesmo. No me basta apenas o ano do nascimento. Recuso-me a passar o resto da minha vida chamando-me Frank ou Peter.
	Ou Johann.  Suzy saiu da sombra e o seguiu at uma outra travessa repleta de tmulos.  Mas d para entender voc, Harry. Est atrs de um nome genuinamente ingls, no ?
	Exatamente.  Ele agora lia uma outra lpide.  Se vou ter uma nova identidade, tenho que me sentir bem com ela. Olha! Esse nome me parece perfeito: William Robert Arthur. O que voc acha?
	Para mim est perfeito. Vai ser engraado passar a cham-lo de William, aps ter conseguido os papis de identificao.
Numa tarde, sentada em frente ao mar, Suzy pensava na vida e se perguntava por que sempre se relacionava com pessoas diferentes. Primeiro, ali em Ocean City, tinha encontrado a sra. 0'Connell que achava que fazer arte era ficar colecionando pedaos de tocos. Depois, um pouco antes da sra. 0'Connell partir, encontrara Harry quase morto na beira da praia. Isso sem contar os amigos diferentes que moravam em Manhattan.
	Suzy Harper, voc atrai pessoas estranhas, e junto com elas muita confuso  ela disse baixinho como se tivesse conversando com uma outra pessoa.
Suzy gostaria de saber por que isso acontecia pois achava que no procurava essas pessoas: elas simplesmente aconteciam em sua vida.
	E foi exatamente o que aconteceu com Harry. No podia deix-lo na praia. Precisava cuidar dele. Quando  que poderia imaginar que era um homem do incio do sculo passado. Nunca, nunca iria imaginar uma coisa dessas! Mas ele . Chegou aqui pensando que estivssemos em 1813. Pode?  Suzy balanou a cabea de um lado para o outro e respondeu  prpria pergunta:
 Pode. Com voc, Suzy Harper, pode tudo!
Suzy ficou uns segundos pensando em Harry e sorriu. Ele era um homem muito estranho. Estranho e estranhamente lindo. E no lhe parecia muito aconselhvel, nem prudente, permanecer ao lado dele por mais tempo.
Harry Wilde era a prpria tentao em pessoa.
E Suzy adorava todo tipo de tentao.
Depois daquele beijo que acontecera quando haviam chegado do cassino, Suzy nunca mais tivera um contato mais ntimo com ele. No seria imbecil a esse ponto. Sabia que se no tomasse cuidado, acabaria se envolvendo com ele.
Durante o dia, Suzy ficava a maior parte do tempo trabalhando nas revises. Harry, por sua vez, ou via televiso, ou trabalhava em seus manuscritos. s vezes os dois resolviam passear pela praia e pouco conversavam. Depois que ganhara os seis mil dlares no cassino, Harry fazia questo de dividir as despesas da casa. E essa foi uma vitria de Suzy. No que tivesse de brigar para ele assumir a metade das despesa, muito pelo contrrio: Harry queria pagar tudo sozinho. Afinal, para ele, era o homem o responsvel pela subsistncia de uma mulher.
A cada dia que passava, ele se parecia mais com a maioria dos homens do final do sculo vinte: em primeiro lugar o trabalho. Depois? O trabalho tambm. Para Harry, at assistir televiso era uma maneira de trabalhar. Fora a melhor maneira que havia encontrado para conhecer melhor a poca em que estava vivendo.
Suzy sentia saudades dos primeiros dias que passara com ele. Harry mostrava-se to atento, to grato...
	Inferno de vida!
	Por mais que eu viva com voc, ainda me surpreendo como seu linguajar.  Harry estava atrs dela.
	V embora, Harry. Quero ficar sozinha.
	Isso deve ser por causa da idade. Dizem que as mulheres mais velhas gostam muito da solido  ele a provocou.
	Harry Wilde!  Suzy levantou-se furiosa e aproximando-se dele continuou:  Voc me prometeu que nunca mais me chamaria de velha!
	Adoro voc irada, ou melhor, adoro ver voc assim to nervosa. Viu s? Viu s como estou melhorando? Meu ingls logo logo estar perfeito!  Ele tocou-lhe de leve os cabelos.  muito fcil deix-la nervosa, Suzy. Voc est se tornando uma pessoa previsvel.
	E voc, Harry Wilde, est se tornando uma pessoa totalmente imprevisvel.
	William. William Robert Arthur.  Ele lhe mostrou um papel que tinha mas mos.
	No acredito. Ela chegou! - Suzy o abraou feliz.  Sua certido de nascimento chegou! Estou to feliz. Valeu a pena ter feito tudo o que fizemos.
	Sem voc eu no teria conseguido nada. J pensou se fosse uma outra pessoa que tivesse me encontrado? Na certa teria me entregue para a polcia.
	Mas eu quase o entreguei para a cavalaria, lembra-se?

	Claro. Eu fiquei morto de medo.
Os dois caram na risada.
	Suzy, gostaria de falar com voc sobre Wilbur...

	Esquea-se de Wilbur, ele j foi embora faz tempo sem desconfiar de nada. Meu velho amigo acredita que voc entrou ilegalmente no pas. S isso.
	Vamos dar um passeio pela praia, Suzy?  ele perguntou evitando-lhe o olhar.
	No, hoje no.
	Por qu?
	No estou com vontade.  No fundo Suzy sabia que estava com medo daquele passeio. Algo lhe dizia que uma grande surpresa a aguardava.
	Mas eu preciso muito conversar com voc.
Harry insistiu tanto que Suzy acabou concordando com o passeio. E estranhou a maneira dele se comportar. Para quem estava pretendendo conversar, no dava para entender aquele silncio todo.
	Devo lhe dizer que no posso me tornar William Robert Arthur  ele finalmente resolveu falar.
	O qu? Harry Wilde, depois de tanto trabalho voc quer desistir?
	Eu j disse: no posso me tornar William Rob...
	Mas  claro que pode, Harry Wilde!  ela o interrompeu gritando.  Mas  claro que pode! Se eu fosse forte, mas bem forte mesmo, lhe daria uma bela surra s para voc deixar de ser to infantil! Mas por qu? Por que no pode se tornar William Robert Arthur?
Harry se aproximou e a segurou com carinho pelos ombros.
	Sabe por qu? Seria muito ruim no ouvi-la dizer Harry Wilde. Adoro a maneira que pronuncia o meu nome.
	Voc... voc estava blefando!  Suzy o abraou feliz.  Sabia que cheguei a pensar que estava falando a srio? Sem uma nova identidade voc estaria perdido.
	Isso me faz querer falar novamente sobre Wilbur.
	Sempre ele, no  Harry Wilde? Sempre Wilbur Langley!
	Wilbur foi muito bom comigo.
	... isso eu no posso negar.
	Wilbur me aconselhou a me casar com uma cidad americana. De acordo com ele, s assim eu estaria realmente seguro.

	Mas com essa certido voc j  um cidado americano. Agora  s providenciar alguns outros documentos mais fceis. No vejo porque voc tem que se casar com uma americana.
	Eu tambm no entendi direito, mas Wilbur me assegurou
que isso seria muito importante. Ele acha que  bom ficar bem protegido. Existe a possibilidade que um dia as autoridades re
solvam me investigar. Foi a que tive a ideia de continuar sendo Harry Wilde. Acho que assim poderia confundir ainda mais todo mundo.
	Quer dizer que no era um blefe a histria de permanecer com o seu prprio nome?
	No, no era.
	Agora eu estou completamente confusa. Ento voc quer se casar com uma cidad americana e continuar se chamando Harry Wilde.
	E exatamente o que eu quero.
	E como vamos fazer para mudar isso a?  Ela apontou a certido que Harry havia colocado dentro do bolso da camisa.
	Pelo que pude apreender...  Harry sorriu e disse:  Pelo que pude entender das palavras de Wilbur, voc  uma pessoa muito criativa e saber como solucionar esse problema.
		Eu?
	. Voc.
	Wilbur tambm sugeriu onde procurar uma cidad americana que esteja disposta a se casar com voc?  tudo muito arriscado, Harry. J pensou se o servio de imigrao o encontra? Eles vo deport-lo para onde? Para a Inglaterra? Voc no pertence mais a terra nenhuma. Voc est morto, Harry Wilde.
	De jeito nenhum! Eu estou vivo: muito vivo. No tenho culpa de ter vindo parar aqui. Num instante estava com os meus companheiros no mar, no outro estava sendo socorrido por voc.
O que quer que eu faa?
	No sei, no sei o que quero que voc faa. Mas me diga: quando foi que conversou com Wilbur? J faz tempo que ele foi embora.
	H trs dias pelo telefone.
	E por que no me disse nada?
	Eu me esqueci.
	No seja mentiroso, Harry Wilde!
	, eu estava mentindo. Acontece que Wilbur tambm sugeriu que eu me casasse com voc.
	O qu? Quer dizer ento... Ah, o Wilbur me paga!
	Achei uma tima sugesto. E foi exatamente quando imaginei voc se chamando Suzy Wilde que resolvi permanecer com o meu nome.
	Meu Deus! Como esses homens so romnticos!
	Estou esperando uma resposta, Suzy Harper.
	Odeio! Odeio Wilbur, odeio voc e todos os homens.  Suzy estava muito exasperada.  Por voc tenho um dio muito particular, entendeu?
	Quer dizer que sua reposta  no?
	Voc realmente tem muita coragem, no ? Como sabe se no estou apaixonada por outro homem? Como sabe se no estou apaixonada por milhes de outros homens?
	Voc? Isso nunca me passou pela cabea... Pensei que j tivesse passado da idade de...
	No ouse terminar essa frase, Harry Wilde! No ouse!
	Perdoe-me, madame. No quis ofend-la.
Apesar de saber que no incio Harry a estava provocando, Suzy percebeu que de repente ele ficara muito nervoso. H muito tempo deixara de falar de maneira to formal como o fizera na ltima frase. Ele era um homem muito querido e estaria perdido se no o ajudasse. Absolutamente perdido.
Porm, nem uma vez Harry mencionara a palavra amor; nem fizera a mnima sugesto de um sentimento mais forte.
Um silncio pesado caiu entre os dois antes que Harry perguntasse: 
	Bem, depois de tudo o que me disse, posso considerar que sua resposta foi no?
	No.  claro que no pode. Eu me caso com voc. Mas quero que saiba que  s para ajud-lo. Estaria totalmente perdido sem mim, Harry Wilde.  Ela o encarou e continuou:  Pensando melhor, um outro motivo que me leva a casar com voc  poder tornar a sua vida um verdadeiro inferno!
Sem pronunciar mais nenhuma palavra, Suzy saiu correndo e s se sentiu segura em seu quarto. Com a porta bem trancada.

Capitulo VI

Harry estava no quarto trabalhando no manuscrito quando Suzy o chamou e pediu que fosse conversar com ela na varanda. Ele guardou o manuscrito. Algo na voz de Suzy, uma certa excitao, indicou-lhe que iria se surpreender. No sabia se iria ficar feliz, mas surpreso ele ficaria. Suzy Harper sempre o surpreendia.
E Harry estava certo: ela a surpreendeu.
Suzy, que mais parecia a me de todas as invenes, tinha pego a falsa certido de nascimento que custara to caro e colocado dentro da mquina de lavar roupa!
	A ideia me ocorreu quando encontrei uma folha de papel que h muito no via. Ela estava dentro da minha bolsa, toda vincada no lugar em que eu a tinha dobrado. Venha at aqui.  Ela o levou para o local onde se encontrava a mquina, que j estava no processo de centrifugao.  A fiquei olhando para a mquina cheia de roupa e me lembrei do que acontece quando deixamos papis nos bolsos das roupas que lavamos. Eu sempre esqueo papis, at mesmo dinheiro no bolso das minhas calas.
	E o que acontece?
	O papel fica todo estranho...
Harry estava comeando a entender o plano de Suzy. No sabia se iria dar certo, mas comeava a entend-lo.
	Mas ser que isso tudo vai esconder a alterao que voc fez na certido?
	Alterao? Eu apenas troquei o nome William Robert Arthur por Harry Wilde. No era isso que voc queria?
	Era isso, sim. Mas apesar daquele lquido branco que voc usou ter feito desaparecer o nome original, qualquer um, se olhar com mais ateno, ver que o documento foi alterado.
	Tenha f, Harry!  Suzy exclamou no exato momento em que a mquina desligou.  Tudo vai dar certo, acredite em mim!
	Pelo jeito no tenho outra opo. Tenho?  Harry encos tou-se na parede esforando-se para acreditar no otimismo infantil de Suzy.
Ela retirou a tampa da mquina e curvou-se para procurar a cala na qual deixara a certido dentro do bolso.
Apesar de gostar muito de ver as pernas perfeitas de Suzy ali naquela posio, Harry foi at a janela e ficou observando o mar. Trs dias haviam se passado desde que Suzy aceitara se casar com ele. Dois desses dias tinham sido gastos em silncios desconfortveis e sorrisos nervosos.
Suzy, para no pensar no problema, se dedicara muito ao trabalho. Harry, por sua vez, fizera longas caminhadas pela praia.
O que iria acontecer entre ele e Suzy seria um casamento por convenincia. Uma prtica muito aceita na poca dele, mas no naquela sociedade. A maioria dos americanos se casavam por amor, apenas por amor. No se casavam por convenincia, nem por dinheiro. Tambm no se casavam nem por ttulos ou posio social. E jamais para obter uma identidade!
Mas Wilbur fora categrico: s o casamento com uma cidad americana o livraria definitivamente de problemas futuros. E o aconselhara a se casar com Suzy, dizendo que seria muito bom para ela, que estava na idade de se comprometer com algum srio como ele. Alm do mais, Wilbur insistira em dizer que Suzy adorava crianas.
Crianas...
Harry deu uma olhada para trs e viu que Suzy ainda procurava o documento. Voltou ento a olhar para o mar.
Ser que teriam, filhos? Essa era uma pergunta muito sria. E amor? Eles acabariam se apaixonando? Da parte dele existia um grande desejo. Da parte de Suzy? Apenas compaixo. Ser que um dia a compaixo que ela sentia poderia se transformar em algo mais profundo?
	Pronto! Misso cumprida!  ela gritou.  Venha, Harry, venha ver!
Triste, Harry balanou a cabea, como se aquele gesto pudesse ajud-lo a clarear a escurido que tomara sua alma nos ltimos dias. Eram sempre as mesmas perguntas sem respostas.
	O que foi? Saudades da velha Inglaterra?  ela perguntou.
	No, estava apenas pensando na vida.
	Pois desista. No vale a pena. Pensar muito s nos leva a perder energia. E precisamos de toda energia para continuarmos vivendo!
	Acho que tem razo.  E olhando para a certido que estava nas mos dela, Harry perguntou:  E ento? Conseguiu realizar o milagre?
	Veja voc com os seus prprios olhos.  Ela entregou-lhe a certido.
O papel tinha as marcas das dobras e, apesar de estar bastante danificado, ainda continuava legvel  isso se lido com bastante cuidado e ateno. E o principal: agora as alteraes efetuadas por Suzy quase no apareciam.
	Voc conseguiu!  ele disse espantado.  Ser que j considerou a hiptese de se tornar uma marginal?
	Por incrvel que parea, no. O crime no me atrai.
	Mas o que estamos fazendo  um crime.
	... mas seria mais criminoso ainda deixar que mandassem voc para fora do pas.
	No sei, no...  Ele no pde deixar de sorrir.  Acho que dentro de voc tem uma criminosa em potencial.
	Tenho a impresso que voc fez com que eu conhecesse a minha parte mais escura, mais escondida. Mas agora vamos colocar esse papel para secar. Enquanto isso tomamos um banho e depois vamos para o cartrio dar entrada nos papis para o nosso casamento. Depois que fizermos isso precisaremos esperar trs dias. E tambm precisaremos fazer os nossos exames de sangue.
	Exame... exame de sangue?  ele perguntou assustado. Quer dizer que para se casar no sculo vinte os noivos precisam ser sangrados?
	E esquartejados!  Suzy caiu na risada.  Se no fizerem isso os noivos fogem, Harry.
	No vou deixar que encostem em mim!
	Ento no vai haver casamento.
	Isso  impossvel! Como uma civilizao to adiantada como a de vocs pode sangrar uma pessoa antes do casamento?
	No  nada disso, Harry. S estava brincando.
	Ainda bem. S faltava mexerem no meu sangue para eu poder me casar.
	Mas isso  verdade.
	Isso o qu?
	Para realizarem o casamento voc vai precisar examinar o seu sangue, sim. Eles s no vo esquartej-lo.
Harry inspirou profundamente e pediu:
	Suzy, por favor, me explique direito como  esse exame.
	E simples, Harry. Eles pegam uma agulha desse tamanho e...  Suzy fez um amplo gesto com as mos  E tiram o sangue.
	Uma agulha?
	. Uma agulha.
	Mas uma agulha de croch? Uma agulha de costura?
	Nem uma nem outra. Eles usam uma agulha de tric.
	No vou! Nada no mundo ir convencer-me a fazer o referido exame!
	Pronto! Ele est nervoso: j comeou a falar de novo como antes.  Ela resolveu para de brincar:  Harry, no precisa ficar to assustado. A agulha  pequena e a gente quase no sente dor.  apenas uma picada: uma picadinha de nada.
	Eu no irei! Nunca na minha vida eu adoeci.
	Mas voc precisa ir. Acredite:  rpido e quase indolor.
	Voc est mentindo, Suzy Harper!
	No, no estou  ela disse com firmeza.
	Alm de mentir, voc gosta muito de me ver assustado.
	Bem, disso eu gosto mesmo. Mas no estou mais mentindo.
	Alguma vez voc j fez exame de sangue?
	Claro que fiz. Todo mundo faz. Exame de sangue  muito comum.
	Quer dizer que na Amrica do final do sculo vinte  comum as pessoas deixarem-se perfurar por agulhas?

	Dito dessa maneira at que fica engraado, terrvel at. Mas  uma picadinha de nada  ela voltou a repetir.
	Eu... eu...
	No se preocupe, Harry Wilde. Olha: voc est branco como uma folha de papel. Est da mesma cor do dia que eu tirei voc do mar. Faremos o seguinte: enquanto tiram o meu sangue voc fica olhando para ver como . Certo? Agora apresse-se! Se no se apressar, vou acabar desistindo deste casamento.
	Quer dizer que j est arrependida de ter concordado em se casar comigo?  Por um instante ele se esqueceu do pavor que o exame de sangue lhe despertava. Suzy iria casar-se com ele, mas no pelas razes que gostaria.
Suzy foi para o quarto e Harry a seguiu.
	Perguntei a, voc se j est arrependida de ter concordado em se casar comigo.
	Nem pense em uma coisa dessas. Onde, afinal, uma senhora como eu iria arrumar um marido? Devo sentir-me feliz. Afinal, casamento  casamento. O que me preocupa  enfrentar o pessoal do cartrio. Se descobrirem a verdade, passaremos um bom tempo na priso. Quanto a mim, saio da priso e continuo vivendo a minha vida. Mas e quanto a voc? Uma vez assisti um filme onde tinha uma aliengena que foi presa e...
	O que aconteceu com ela?  Harry perguntou preocupado.
	Os cientistas queriam dissec-la.
Com as roupas nas mos, Suzy foi tomar um banho. Uma hora mais tarde os dois j estavam no cartrio.
	O senhor no sabe o quanto esse papel  importante?  a escrevente perguntou a Harry, segurando a certido de nascimento com as pontas dos dedos como se ela pudesse contamin-la.
	Infelizmente eu sei, sim, madame.
"Pronto!", Suzy pensou. "Ele est nervoso e vai comear a falar como antes!"
	Deveria ter tomado mais cuidado.
	A senhora tem toda razo. Acontece que minha nsia de me casar com a srta. Wilde era to grande que inadvertidamente esqueci a certido no bolso da cala e ela foi parar na mquina de lavar. Essa certido ficou no meu bolso durante vrias semanas, at que a srta. Wilde decidisse se casar comigo.  Ele colocou um brao em torno do ombro de Suzy e a trouxe para junto de si.  Finalmente, apesar de ter deixado a minha certido neste estado, venci a batalha e estou muito feliz.  Harry deu um sorriso sedutor. Ele sempre saia-se muito bem com as mulheres mais velhas.
Exceto com aquela escrevente.
A mulher olhou de novo para a certido de nascimento e quis saber:
	Se o senhor nasceu em Nova Jersey, de onde vem esse sotaque to carregado?
Suzy resolveu intervir:
	Os pais de Harry so diplomatas e sempre viajaram muito. Ele foi educado em Oxford, no  meu querido?  De uma maneira cmplice ela continuou:  No fundo, no fundo, acho que esse sotaque exagerado  s para me impressionar. E conseguiu. A senhora no acha esse sotaque uma gracinha?
Pelo jeito da escrevente, ela no estava achando nenhuma graa naquele sotaque. A mulher olhou mais uma vez para a certido e colocou-a de lado. Aps pegar um caneta, perguntou:
	Qual  a sua ocupao, sr. Wilde?
	Tenente.
	Escritor. Escritor free-lancer  Suzy quase gritou.
	Ah, sei... escritor...  a escrevente falou com descaso.  Tenho um cunhado que tambm  escritor. Minha irm o sustenta h trinta anos. Vou escrever aqui que o senhor  desempregado.  a mesma coisa.
Suzy no gostou das palavras da escrevente. Aquilo era preconceito: puro preconceito! Por que as pessoas tinham que achar que todos os artistas eram desocupados? Os artistas eram pessoas sensveis que...
	Nmero do seu seguro social  a escrevente interrompeu os pensamentos de Suzy.
Suzy e Harry olharam um para o outro apavorados. Eles no tinham arrumado um seguro social falso, portanto no existia um nmero para fornecer  mulher!
Foi Suzy quem mais uma vez saiu em auxlio de Harry e comeou a inventar vrios nmeros.
	Ser que a senhora no poderia fazer o favor de deix-lo falar?  a escrevente reclamou, apontando a caneta para Suzy.
	Minha noiva acha que tenho uma grande dificuldade com nmeros, por isso resolveu me ajudar. E ela tem razo... A senhora sabe como ns artistas somos pessoas avoadas...
A mulher balanou a cabea vrias vezes e, olhando para Suzy, pediu que ela repetisse os nmeros.
	Meu cunhado  a mesma coisa. s vezes at se esquece do endereo onde mora.  Depois de anotar o nmero, deu uma olhadela para Suzy e perguntou:  Essa aqui  sua certido de nascimento?
	 .
	Finalmente vou poder ler alguma coisa direito.
A escrevente comeou a anotar os novos dados.
	Querido, venha ver que vista maravilhosa temos daqui.
Harry se aproximou da janela e exclamou:
	O mar... sempre o mar... Como o mar  fascinante...

	Harry, esquea todo o seu romantismo e mantenha a boca fechada  Suzy disse em voz baixa.
	Por qu? Acho que nos samos muito bem. A voz dele tambm era baixa.
	No sei, no... Aquela mulher parece que est meio desconfiada. No  bom arriscar.
Harry estava sentindo-se muito frustrado. Quem deveria manter o controle da situao seria ele. Afinal, quem era o homem ali? Iria mostrar quela mulher que era to americano quanto ela!
Decidido, Harry deixou Suzy junto  janela, se aproximou do balco e, antes que a mulher continuasse com aquele interrogatrio desagradvel, perguntou:
	O que a senhora est achando do campeonato de beisebol deste ano?
	Beisebol?  A mulher o fitou bastante desinteressada.  No gosto de esporte. Para lhe dizer a verdade, detesto esportes. Charly, meu ex-marido, adorava todo tipo de esporte. Falava sobre o assunto o dia inteirinho: beisebol, futebol, vlei, basquete... Bastava ter uma bola e ele sabia tudo sobre o assunto. E  exa-tamente por isso que hoje ele  meu ex-marido e eu fico o dia inteiro trabalhando atrs desse balco, ao invs de ficar cuidando do meu jardim.
Suzy, pressentindo um perigo iminente, foi ficar ao lado de Harry.
	Minha jovem, se o seu noivo tiver algum tipo de semelhana com o meu ex, aconselho-a a pensar melhor sobre esse casamento. Acredite na minha experincia: a coisa mais terrvel do mundo  conviver com um homem que s fala em esporte!
Suzy olhou para Harry de maneira penetrante e parecia estar lhe perguntando: "Viu s o que voc foi me arrumar?"
	Pense bem, minha jovem...  a mulher insistiu.
	Ele no  lindo?  Essa foi a resposta de Suzy que, abraando-o beijou-lhe os lbios de leve.  Eu acho esse homem lindo... A senhora no acha?
	Querida...  Harry estava espantadssimo com a atitude de Suzy.
	Lindo, voc  o homem mais lindo e gentil que encontrei na minha vida.  Suzy continuou a sua representao, tentando desviar a ateno da escrevente.  Sou louca por voc.
	Que voc  louca, no tenho a menor dvida.  Ele riu feliz.
	A senhora no acha ele lindo?  Suzy voltou a perguntar  escrevente.
A mulher parou de escrever, ergueu os olhos e comentou:
	... quanto a isso a senhorita tem razo. Mas ele  artista e parece que gosta de esporte. E qual  a sua profisso?
	Eu tambm sou free-lancer.
	Sei...  A escrevente voltou a se concentrar no que escrevia.
 Desempregada tambm.
O que Suzy queria era fazer um discurso, dizer quela mulher que ela era muito preconceituosa, que encarava os artistas de maneira errada. Mas naquele instante ela precisava continuar com a sua representao de noiva apaixonada. Voltou-se, ento, para. Harry e perguntou:
	Eu adoro o seu cabelo. Ele tem uma cor linda... Sempre soube que o homem dos meus sonhos, o meu prncipe encantado, teria o cabelo nesse tom.
	Pena que eu no apareci montado num cavalo branco. Mas pensando melhor, aquele navio...
Suzy interrompeu-lhe a frase com um beijo. S faltava Harry falar ali, no cartrio, sobre a viagem que fizera atravs do tempo. E na frente daquela mulher.
Harry, profundamente perturbado pelo beijo, puxou Suzy contra si.
	No exagere  ela pediu baixinho.  No precisa exagerar...
	Exagerar? Voc no sabe o que estou sentindo. Esse  o dia mais feliz dessa minha longa vida.
	Chega!
Os dois se assustaram. Ao virarem-se deram de cara com a escrevente, vermelha de raiva.
	Peguem os papis e saiam. Demonstrao de afeto eu at entendo. Mas vocs dois esto exagerando. Ser que no tm um pouco de respeito para com os mais velhos?
Suzy enlaou Harry pela cintura e, sorrindo muito, pegou os papis que a mulher lhe estendia.
	Obrigada, a senhora no sabe como estou feliz. Muito obrigada.
Assim que deixaram o cartrio, Suzy pediu:
	Continue, continue me abraando.
Harry, mais do que satisfeito, parou na calada e, alm de abra-la, beijou-a longamente na boca.
Suzy, com o canto dos olhos, se certificou do que imaginara: a mulher do cartrio tinha ido at a janela e os observava.
	Nunca pensei que voc fosse assim to carinhosa...
	Voc ainda no viu nada. Me leve para casa, quero muito ficar sozinha com voc.
Harry, apressado, abriu a porta do carro. Assim que Suzy entrou, ele correu para o banco de passageiros.
	Me beije de novo  ela pediu.
Suzy no precisou pedir duas vezes. Harry caprichou no beijo.
As mulheres do sculo vinte beijam muito bem.
Os homens de 1813 tambm no so l de se jogar fora...
	Agora, Harry, vou ligar o carro e voc vai continuar o mais perto possvel de mim.
	Quer que eu continue beijando voc enquanto dirige?
	A j  exagero. No quero ser multada. S fique bem prximo de mim enquanto eu saiu dirigindo daqui da garagem.
 Suzy ligou o caro e acelerou devagar. A mulher ainda continuava na janela.
Ao virar a primeira esquina, ela disse:
	Pronto. Pode se afastar.
	Mas por qu?  ele no gostou do pedido.
	Acabou a performance.
	Performance?
	E: acabou a representao.
	Representao? Voc estava representando?

	E voc pensou o qu? Aquela mulher ficou muito desconfiada.
	E mesmo?
	Depois que samos do cartrio ela ficou nos olhando da janela.
	Por qu voc no me disse?
	E pra qu? Para voc lhe acenar? Quando a licena do casamento ficar pronta, venho aqui sozinha. No  bom arriscar. Se vier comigo teremos que representar mais uma vez a cena do casal apaixonado.
	Gostei muito da nossa representao  ele afirmou.

	Mas  claro que sim. Disso eu no tenho a menor dvida. Harry ficou em silncio por alguns instante e perguntou:
	Mas tudo aquilo foi apenas uma representao?

	E voc queria o qu? Ns tnhamos que fazer aquilo. Acho que me excedi um pouco, mas no tinha outro jeito. Sinto-me responsvel por voc. Precisamos continuar fingindo, a menos que resolva contar ao mundo quem de fato voc .
	Isso seria impossvel. Mesmo assim estaria mentindo se no lhe dissesse que adorei o que voc chama de performance. Adoraria repeti-la mais vezes.
	Oh, Harry...  Suzy sentiu-se comovida com aquelas palavras. Sem graa, ela ajeitou melhor o cinto de segurana.
	Oh, Harry...  Ele a imitou e deu-lhe um beijo nos rosto.
Suzy parou o caro no estacionamento do laboratrio.
- Por que voc parou?
	Aqui  o laboratrio.
	Laboratrio...
	E aqui que faremos o exame de sangue.

	E vamos precisar mesmo nos submeter a esse exame vexatrio?
	Exame vexatrio? Imagine...  um exame muito simples.
	 um exame simples para voc, no para mim.
	Voc est com medo?  Ela sorriu.
	Estou.
	E com trinta e cinco anos...
	No, com duzentos e dezesseis anos.
	Qualquer um se submete a esse exame, Harry. J disse que ele  muito simples.
	Eu no sou qualquer um, sou Harry Wilde, cidado ingls, nascido em...
	Pare! Pare com isso! No se comporte como uma criana! Voc  Harry Wilde, cidado americano e nasceu h trinta e cinco anos. Est lembrado?
	Eu havia me esquecido.
	Isso no pode acontecer!
	Quero pedir-lhe desculpa, Suzy.
	E tente, por favor, falar de maneira mais coloquial.
 Mas eu estou falando.
	No. Quando voc se sente nervoso, inseguro, voc comea falar de maneira muito formal.
	Voc est certa. Mas posso lhe pedir uma coisa?
	Depende.
	Se o exame de sangue doer muito, voc me d um beijinho?
	Harry Wilde! Voc est me saindo um bom chantagista!
	No vou lhe dar nenhum beijinho. A nossa performance acabou l no cartrio.
	 uma pena...
	Ser que para ganhar mais um beijinho terei que voltar no cartrio com voc?
	Voc no pode voltar no cartrio comigo. Aquela mulher est de olho em ns dois. Agora saia desse carro.  Ela abriu a porta e desceu.
	Eu espero voc aqui.
	Sem exame de sangue no podemos nos casar.
	Ser que eles no fazem uma exceo?
	No, eles no fazem. Agora desa! E nem pense em desmaiar.
E Harry, de fato, no desmaiou. Porm, em um determinado momento, Suzy tinha certeza que isso quase acontecera. Quando saram do laboratrio, Harry perguntou orgulhoso:
	Viu s? Viu s como sou um homem corajoso?
Suzy olhou para ele e no fez o menor comentrio.
Suzy, sentada numa cadeira de vime, olhava para o cu. Muitas estrela, luar e, dentro dela, um tremenda preocupao.
No dia seguinte ela e Harry se casariam. No dia seguinte uniria a sua vida a de um homem que mal conhecia. No dia seguinte...
	No, no posso ficar desse jeito. Harry  uma pessoa muito querida, delicada e tem se esforado muito para se adaptar a nossa civilizao. J faz tempo que ele no me chama de mulher, faz tempo que no tenta fazer o papel do grande macho... Mesmo assim, o que ser que o futuro nos reserva? O viajante do tempo e a maluca... No, eu no sou maluca.  certo que no me comporto como a maioria das mulhere's, mas da a achar que eu sou maluca...  Ela balanou a cabea.  Mas tambm no sou assim..., digamos..., muito normalzinha. Mas o que  normalidade, Suzy Harper? Voc sempre foi diferente das outras mulheres, por que agora tanta preocupao? Voc  uma pessoa corajosa, preocupada com os outros e isso so qualidades raras.
Suzy ficou pensando naquelas palavras que ela prpria dissera para tentar se confortar. No, definitivamente, no era maluca. Quixotesca, sim. Temerria, tambm. Mas maluca, nunca!
A grande dvida de Suzy estava em dizer ou no a Harry que se interessava por ele. Muito! Mas ela temia a reao dele. O que Harry iria pensar se lhe dissesse que estava gostando profundamente daquela ideia de casamento?
	Na certa iria pegar o primeiro barco para o sculo dezenove...
Suzy continuou pensando na vida. De tudo o que o futuro lhe
reservava, a nica coisa que a deixava insegura era saber que no dia seguinte estaria se casando. Com Harry Wilde. Ela: Suzanne Harper, se casando com um homem que salvara do mar. E se tornaria Suzanne Wilde. Sra. Harry Wilde.
	Meu Deus do cu... E se esse casamento no der certo?
Harry, com as mos no bolso da cala arregaada, andava descalo pela praia, os cabelos soltos ao vento.
No dia seguinte ele estaria casado. Casado com Suzy Harper. Sua protetora. A mulher que o resgatara do mar e lhe ensinara de novo a viver.
Harry sorriu ao lembrar-se do jeito de Suzy quando durante horas ela ficava ensinando-lhe a linguagem do sculo vinte. No incio ele se espantara com a quantidade de grias, mas depois foi se acostumando  ideia. Harry lembrou-se tambm de Suzy ensinado-o a comer, a vestir-se, em como fazer para se dirigir s pessoas.
	Existem muitas diferenas entre o meu tempo e esse... Mas at que eu tenho me sado relativamente bem. Para Suzy, sou um ser extico, e devo funcionar como uma longa performance... Porm, ela  o anjo da minha vida. Tem me dado tanto, e eu tenho lhe dado to pouco em troca... Suzy  to generosa. Ela me acolheu sem sequer medir as consequncias. Confiou em mim. Confiou em um homem que chegou aqui tratando-a de maneira prepotente, dando-lhe ordens... Como os homens do meu tempo estavam enganados... Hoje eu sei que a mulher  a companheira do homem para toda as horas. Mas como eu farei para sustent-la? Ser que algum vai se interessar pelo meu livro?
Muitos homens que Harry havia conhecido, viviam sustentados pelas esposas.
	Mas eu no ! Eu no quero isso! Tenho que encontrar uma maneira de dar a Suzy tudo o que ela merece. Tambm no posso deixar faltar nada aos nossos filhos.
Filhos. Harry ficou olhando as ondas do mar. Sim, ele queria ter filhos. E queria tambm que Suzy estivesse ali com ele. A noite estava to linda, to romntica... Mas, como sempre, ela o evitava. Para Suzy Harper aquele era apenas um casamento de convenincia.
	Mas eu queria que fosse diferente. Queria um casamento de verdade. Queria filhos, muitos filhos. Mas no posso ir at ela e lhe dizer tudo isso, no posso lhe dizer que a amo. Ela vai ficar tremendamente assustada e  capaz de at querer desistir do casamento. No, eu preciso dar tempo ao tempo. Devagar ela ir perceber que eu a amo de verdade. Devagar ela ir perceber o meu amor, a minha lealdade.
Harry sentou-se numa pedra e pegou uma conchinha.
	E se de repente me acontece alguma coisa, alguma coisa inexplicvel, e eu voltar para 1813?
Harry se apavorou com a ideia. No queria voltar. Queria ficar para sempre com Suzy.
	No posso pensar numa hiptese dessa. Acabaria enlouquecendo. A nica coisa que preciso pensar  que amanh me casarei com a mulher mais maravilhosa do mundo. A mulher que eu amo. A futura me dos meus filhos.

Capitulo VII

Para madrinha de seu casamento, Suzy resolveu convidar a sra. O'Reilly, a mulher que duas vezes por semana fazia limpeza na casa de praia.
A sra. O'Reilly, sempre falante e descontrada, hoje se mostrava muito nervosa.
	Sra. 0'Reilly!  Suzy gritou.
	O que est acontecendo Suzy?
	E a senhora ainda pergunta o que est acontecendo? Afinal quem  a noiva? A senhora ou eu? Estou aqui fora esperando h um tempo.
	Espere um pouquinho mais.
	Desse jeito no d. Vamos chegar atrasados!
A faxineira no respondeu mais nada. Impaciente, Suzy comeou a andar de um lado para o outro.
	Sra. O'Reilly, no venha me dizer que agora foi a outra meia que furou! Se isso aconteceu, esquea! Se quiser pode ir at sem sapato para o cartrio. O que eu no quero  chegar atrasada.
	Calma, Suzy! Calma! J estou indo.
	Faz meia hora que est me dizendo a mesma coisa! Desse jeito no teremos casamento.
	Mas  claro que teremos casamento  a mulher gritou ainda dentro de casa.
Suzy se perguntava o porqu da mulher estar agindo daquela maneira e no encontrava nenhuma explicao plausvel.
	Talvez seja essa a maneira que ela encontrou para nos dizer que no deseja ser sua madrinha. Voc deveria t-la convidado com mais antecedncia  Harry comentou.
	Se ela no faltasse tanto eu teria feito isso. Mas no tive chance.
	Por que no telefonou para ela?
	Simplesmente porque a sra. O'Reilly no tem telefone.
  verdade...  Harry parecia no estar muito preocupado. Mais uma vez ele se colocou diante da porta de vidro e ficou admirando a prpria imagem.
	Voc adora se admirar, no ?
	Adorar no  bem o termo, Suzy. Mas eu gosto muito de me vestir bem e de me certificar se todos os detalhes esto em ordem.
	Mas eu j disse que essa roupa est perfeita. Nunca pensei que ficasse to bem de terno. Voc foi feito para usar temo, Harry.
	Eu tambm penso a mesma coisa.
- Quer dizer que estou diante de um homem vaidoso.
	Eu? Vaidoso? De jeito nenhum! Sou apenas cuidadoso com a minha aparncia. A sua roupa tambm est muito bonita.
	 s isso que voc tem para comentar? Que minha roupa est bonita? Depois do sacrifcio que fiz para encontrar esse vestido?
	Sacrifcio?
	Claro que foi um grande sacrifcio. Fiquei horas procurando nas lojas algo que se adequasse a esse dia.
	Demorou tanto assim para encontrar esse vestido?
	Voc no lembra que eu fiquei um tarde inteirinha fora de casa?
	Naquele dia que voc no quis que eu a acompanhasse at a cidade?
	Exatamente. Voc no poderia ter ido comigo.
	Posso saber por qu?
	Por que o noivo no pode ver a noiva antes do casamento.
	Mas eu estou vendo voc, no estou?
	Acontece que no tinha outro jeito. Afinal, moramos na mesma casa. A resolvi que pelo menos antes do dia do casamento voc no veria a minha roupa.
	E ela  muito bonita. Ainda bem que no resolveu usar um vestido transparente.
	Bem que eu pensei em usar um vestido transparente. Mas no encontrei nenhum do meu gosto.
	A resolveu comprar um vestido azul bem curto, de mangas compridas e sem decote.
	Tenho um gosto ecltico.
	Eu sei disso.
Suzy olhou para dentro de casa e tornou a chamar:
	Sra. O'Reilly, se demorar mais um minuto ns vamos embora!
	Bom-dia! Esta  uma manh fantstica para um casamento!
	Wilbur! O que est fazendo aqui?  Suzy virou-se assustada.
	Meu caro amigo Wilbur, mas que prazer incomensurvel t-lo aqui conosco!  Harry se aproximou de Wilbur e o abraou.
"Harry est nervoso. Aparentemente ele parece calmo, mas esse prazer incomensurvel o traiu. S espero que ele no estrague tudo agora", Suzy pensou aflita.
	Incomensurvel prazer  o meu, caro amigo  Wilbur disse sorrindo.  E voc est muito elegante. Encontrou o alfaiate que eu lhe indiquei?
	Suzy o encontrou por mim. E ele acertou no corte!
	Voc tambm est muito bonita, Suzy. Mas juro que pensei que fosse encontr-la vestida de roxo ou de laranja. Acho que nunca a vi vestida de azul. Mas no acha que essa roupa est curta demais?
	 mesmo?  Suzy perguntou meio ressabiada.
	Jonathan, por favor, traga o embrulho para dentro  Wilbur pediu ao motorista que carregava uma caixa enorme.
	Mas ns precisamos ir para o cartrio!  Suzy reclamou.
	E chegar l uma hora adiantado?  Wilbur perguntou.
	No gosto de me atrasar para compromissos desse tipo.
	Ns no vamos nos atrasar  Wilbur entrou na casa acompanhado pelo motorista. Assim que o viu, a sra. O'Reilly disse:
	Ainda bem que chegou! Pensei que tivesse desistido do casamento.
	Quer dizer ento que esse seu comportamento totalmente descabido era porque estava esperando Wilbur?  Suzy estava espantada.
	E voc acha que eu perderia seu casamento, querida? No o perderia por nada.  Wilbur se encaminhou para o quarto de Suzy e pediu ao motorista que deixasse o presente sobre a cama.
	Estou muito feliz com, a sua vinda, Wilbur  Harry disse.  Sabia que no iria faltar.
Suzy estava confusa. Afinal quem havia telefonado para Wilbur? Harry ou a sra. 0'Reilly?
	No vai abrir a caixa, Suzy?  Wilbur perguntou.
	No daria para fazer isso mais tarde? Precisamos ir para o cartrio.
	Abra, Suzy  Harry pediu de uma maneira muito carinhosa.
	Tudo bem, vou abrir. Se no houver casamento, a culpa no  minha.
Suzy abriu a embalagem que envolvia a caixa e parou.
	Vamos, Suzy. Abra a caixa  a sra. 0'Reilly sorriu de maneira cmplice para Harry.
Numa tentativa de conter a impacincia, Suzy inspirou profundamente, retirou a tampa da caixa e exclamou:
	No acredito no que estou vendo! Um vestido de noiva!
	Pois pode acreditar. Ele  todo seu!  Harry disse satisfeito.
	Voc... voc...  o responsvel por isso?  Suzy perguntou.
	No disse que ela ia gostar, Wilbur?
	Acho que voc a conhece melhor do que eu, Harry. Olha que foi super difcil em to pouco tempo contratar os servios da estilista mais famosa de Manhattan.
	Voc telefonou para Wilbur e encomendou o vestido?
	Assim que marcamos o dia do casamento.
	E eu no percebi nada...  Suzy estava quase chorando.
	A estilista fez o que pde para que o vestido ficasse bem tradicional. E, na minha opinio, acho que conseguiu.
	Infelizmente as prolas no so verdadeiras, Suzy. Mesmo assim eu queria muito v-la vestida com um longo vestido branco.
	Suzy, retire o vestido da caixa!  a sra. O'Reilly pediu.
	Mas de jeito nenhum! Meu noivo no pode ver o vestido antes do casamento.
	Mas por que Suzy?
	J disse a voc, Harry: d azar.
	Mas voc j estava vestida para o casamento.
	Agora  diferente. Quero que vocs dois saiam do quarto.
	Suzy, voc no pode fazer isso comigo  Harry protestou.
	Mas  claro que posso.
O motorista voltou a entrar no quarto com trs caixas menores nas mos.
	E o que  isso agora?.
	Os sapatos, o buque e a grinalda  Harry respondeu com timidez.
"No Suzy Harper... Voc no vai chorar!", Suzy se recomendou em pensamento e em voz alta perguntou:
	O que vocs dois ainda esto fazendo dentro do meu quarto.
	A gente j vai sair  Wilbur colocou a mo no ombro de Harry.
	Espere s um pouco, Wilbur  Suzy pediu.
	Esperar? Mas assim voc vai se atrasar!  A aflio agora era de Harry.
	Sra. 0'Reilly, ser que daria para emprestar o seu carro ao Wilbur?
	Com todo prazer, Suzy.
	Wilbur, leve o Harry para o cartrio. Ns nos encontraremos l.
	tima ideia, Suzy.  Wilbur esfregou uma mo na outra.  tima ideia! Depois que estiver pronta, meu motorista leva vocs para o cartrio.
Suzy olhava para o vestido que Wilbur trouxera.
	Meu Deus... que coisa mais linda...
	Foi sr. Wilde quem descreveu ao sr. Wilbur o modelo do vestido.
	E voc sabia de tudo, ento?
	Sabia. E estava morrendo de vontade de contar tudo para voc. Mas o sr. Wilde me proibiu. Ele at pediu que eu faltasse ao trabalho. Queria estar seguro que nada estragaria a surpresa.
	Ah... ento foi isso...  Suzy retirou o vestido da caixa.
	Nunca vi um vestido to maravilhoso...
 Que tecido  esse?  a sra. O'Reilly perguntou interessada.
	No sei... mas  to delicado...
	E o bordado todo de prolas... Nunca vi um vestido to delicado.  A sra. 0'Reilly olhou no fundo da caixa.  Suzy, d uma olhada nas luvas.
	Luvas?
	. So brancas tambm, e longas...
	O Harry pensou em tudo.
	Sabe, Suzy, estava achando esse vestido que voc est usando um tanto ousado para uma noiva.
	Ousado? Esse vestido? Assim de mangas compridas e sem nenhum decote?
	Mas ele  muito curto, Suzy. Nem se compara com esse que o sr. Wilde encomendou.
	Tem razo... Voc me ajuda a vesti-lo?
	E voc ainda pergunta? Mas agora acho melhor se apressar...
No instante em que Suzy se olhou no espelho, no foi capaz de conter as lgrimas.
	Agora no  hora de chorar. Deixe as lgrimas para depois 	a sra. O'Reilly recomendou.
	Mas eu estou emocionada.
	Eu tambm, querida.

	Nunca penei que fosse me casar. E vestida de noiva, ento...Isso nunca me passou pela cabea.
	A vida nos reserva muitas surpresas, Suzy. Vamos colocar a grinalda.  Depois de alguns segundos, a sra. O'Reilly disse:
	Voc est parecendo uma rainha. Acho que nunca vi uma noiva to bonita como voc. Agora segure o buque e sorria.
Suzy olhou para a sua imagem refletida no espelho. Jamais imaginara que um dia se vestiria com tanta pompa.
	Se minhas amigas me vissem diriam que agora eu enlouqueci de vez.
	No estou vendo nada de loucura. Toda mulher quer se casar vestida de noiva. Vamos?
Durante o trajeto at Atlantic City, Suzy tinha certeza de que tudo aquilo no passava de um sonho. Pena que aquele sonho fosse s um arranjo. Talvez, em outras circunstncias, pudesse se sentir mais feliz. Mesmo assim Harry tinha sido muito atenciosa com ela.
Voc no est no caminho certo  Suzy disse ao motorista quando j percorriam a rua da cidade.
	Esse  caminho que o sr. Wilbur me explicou.
	Mas o cartrio fica na rua de cima e...
Antes que Suzy terminasse a frase, o motorista estacionou e frente a uma igreja.
	Mas o que  que est acontecendo?  Suzy perguntou espantada.
E a resposta logo lhe foi dada com a aproximao de Wilbur:
	Voc est linda, querida... Vamos, eu a ajudo a descer.
	Mas Wilbur, o que est acontecendo?
	O seu casamento,  claro!
	Mas...
A sra. O'Reilly, que j tinha descido do carro e se encontrava ao lado de Wilbur, disse:
	Ainda bem que consegui ficar com a minha boca fechada.
J pensou se eu tivesse contado tudo?
	Vou acompanh-la at ao altar, Suzy.  Ele abriu a porta do carro.
Assim que Suzy entrou na igreja, um som de rgo invadiu o ambiente. No altar, srio, Harry a aguardava.
	Wilbur, como  que ficaram sabendo que eu era catlica?
	Um dia voc me falou a respeito da religiosidade da sua famlia.
	E foi voc quem mandou enfeitar a igreja de flores?
	Foi. A pedido de Harry. Faz dois dias que estou aqui em Atlantic City.
	Dois dias? E o vestido?
	Chegou hoje bem cedinho.
Enquanto caminhava, Suzy esforava-se para no chorar.
	A sra. 0'ReilJy  perfeita.  Wilbur sorriu.  Ela me ajudou muito com os preparativos.
	Vocs trs me fizeram uma imensa surpresa.
Harry desce os degraus do altar e se aproximou de Suzy.
	A noiva  toda sua  Wilbur disse.
	Meu Deus... como est maravilhosa. Voc me lembra...
	Voc tambm est lindo, Harry. E obrigada pela surpresa 
	Suzy o interrompeu, com medo que ele de repente pudesse dizer algo que revelasse o segredo de sua origem.
De braos dados, os noivos foram para o altar. At uma aliana no dedo anular da mo esquerda, Suzy usava ao terminar a cerimnia. O beijo que se seguiu foi longo e apaixonado.
	Estou vivendo o momento mais bonito de toda a minha longa vida  Harry disse baixinho.
	Oh, Harry... adorei tudo. Voc foi muito delicado em me preparar um casamento de verdade.
	E por um acaso estava esperando um casamento de mentira?
	Wilbur perguntou antes de cumpriment-la.
	 apenas ,uma maneira de dizer... Voc sabe como fazer as coisas.
	Seja muito, muito feliz Suzy. Vou querer ser o padrinho do seu primeiro filho.
	Ser. Voc ser o padrinho do nosso primeiro filho Harry afirmou.
Suzy estranhou tanta certeza da parte dele, mas no fez nenhum comentrio.
	E eu serei a madrinha  a sra. O'Reilly se ofereceu.
	No tenha dvida, sra. 0'Reilly. A senhora ser a madrinha do nosso primeiro filho.  Mais uma vez Suzy estranhou a maneira segura de Harry falar.
Saindo do altar, os noivos e os padrinhos se encaminharam para uma pequena sala onde se realizou a cerimnia do civil.
	Agora, sr. e sra. Wilde, queiram me acompanhar at a outra salaWilbur convidou depois que eles assinaram o livro do cartrio.
Ao entrar no local, Suzy no pde deixar de conter um grito de espanto. Um orquestra de cordas os recebeu com uma msica suave. No centro da sala, uma mesa estava preparada para quatro pessoas.
	Por essa eu no esperava  Suzy disse.
	Venha, vamos nos acomodar.
Harry, muito atencioso, segurou a cadeira para que Suzy se sentasse.
Trs garons entraram na sala e comearam a servir o almoo.
	Viva os noivos!  Wilbur gritou quando um champanhe foi aberto.
Depois de vrios brindes, Wilbur convidou a sra. O'Reilly para danar.
	Voc  a noiva mais sublime que j vi.
	Voc acha mesmo?
	Mas  claro que sim. Tudo me faz lembrar o ano de 1813.
	... A performance foi muito boa  ela falou com uma certa tristeza.
	Performance?
	E, Harry, estou falando que representamos muito bem.
	Mas eu no estava e nem estou representando.
	No?
	No, no estou. Tenho muito honra em receb-la na minha vida para sempre.
	Mas Harry...
	Agora eu quero danar com a noiva.  Wilbur segurou a mo de Suzy e a puxou.  Voc est triste?
	No, apenas emocionada.
	Foi um casamento muito bonito.
	Vocs trs capricharam.
	A noiva merece.
	Obrigada.

	Vocs j decidiram onde ser a lua-de-mel?
Suzy hesitou um pouco antes de responder:
	A gente resolveu ficar na casa de praia mesmo.
Fizeram muito bem. Aquele local  muito romntico.
Quando Harry convidou Suzy para danar, os msicos comearam a tocar um linda valsa.
	Tenho a sensao que estou nos velhos sales de Londres.
	Com uma garota de dezoito anos nos braos.
	No, no estou com uma garota de dezoito anos nos braos. Continuo com a sensao de estar na velha Londres, mas nos meus braos tenho uma mulher adorvel de trinta e dois anos.
	No precisa exagerar, Harry.
	E quem disse que estou exagerando? Tinha medo que no concordasse em se vestir de noiva.
	E por qu?
	Voc  to moderna. E pelo que pude observar, hoje em dia as mulheres no fazem muita questo de um casamento mais formal.
	 verdade...
	Obrigado.
	Por que est me agradecendo?
	Por voc ter realizado uma fantasia que venho acalentando desde o momento que a conheci.
	Uma fantasia?
	Sempre quis v-la de vestido longo, como as mulheres do meu tempo. Acho que as roupas de hoje em dia no so muito romnticas.
	Mas pensei que voc...
	 claro,  claro que gosto de ver as mulheres quase desnudas na praia. Mas a roupa  algo muito sensual... Quando tiver muito dinheiro quero comprar roupas lindas para voc...
	Todas sem decote, longas e com mangas compridas.
	Voc v algum problema nisso?
E voc no? S falta agora dizer que quer que eu use espartilho.
	No seria uma m ideia.
	Tudo bem, eu uso espartilho desde que voc tambm use um.
	Eu?
	E. Voc. Deveres e direitos iguais entre o homem e a mulher.
 assim que funciona as relaes nesse final de sculo. Espartilho deve ser algo que aperta muito o corpo. Se eu tenho que ficar apertada, nada mais justo que voc tambm fique.
	... acho que essa no  boa ideia.  Harry comeou a rodopiar pelo salo.  Mas bem que voc poderia usar umas roupas mais discretas.
	No acredito! Mal ele acabou de casar e j est querendo ditar ordens.
	No so ordens, Suzy. So apenas sugestes. Tambm gosto da maneira que voc se veste. No comeo estranhei muito, mas agora j estou mais acostumado.
Suzy sorriu. Estar nos braos de Harry era uma sensao muito boa. Por ela aqueles momentos jamais terminariam. Mas como tudo na vida, aqueles momentos tambm terminaram.
Wilbur os levou at em casa.
	Vamos entrar?  Suzy perguntou.  Tenho uma excelente garrafa de vinho.
	Acho melhor vocs ficarem sozinhos.
	De jeito nenhum. Entre, sra. 0'Reilly. Entre, Wilbur.
Enquanto os convidados e o noivo ficaram conversando na sala, Suzy foi se trocar. Quando voltou trazia nas mos a garrafa de vinho.
	E o vestido?  Harry quis saber.
	No d para ficar vestida de noiva numa casa de praia.
	E por que no?
	Harry, o casamento terminou.
	E verdade.  Ele se levantou e foi pegar as taas.
Depois de aberta a garrafa de vinho, mais uma vez a sade dos noivos foi brindada.
Eram quase seis horas da tarde quando Wilbur e a sra. O'Reilly foram embora. Suzy, acenando para os amigos, sentia-se mais apreensiva do que nunca. Harry, que pelo jeito no estava acostumado a beber, vrias vezes dissera coisas que s ela entendera. Mas Wilbur, embora no as entendesse, havia ficado muito desconfiado. Em um determinado momento chegara at a lhe perguntar quem era realmente Harry Wilde.
Suzy voltara a afirmar ao amigo que Harry era um ingls que conhecera na praia. Mas, pelo jeito, Wilbur no ficara convencido. E prometera voltar no dia seguinte. Suzy no tinha dvidas que seria para fazer mais perguntas.
Ao entrarem dentro de casa, Suzy percebeu que Harry estava muito nervoso.
Bem, enfim ss...  ela disse tentando deix-lo mais  vontade.
	... Enfim, ss...
	Voc est com fome?
	No, no estou.

	Se estiver, poderamos dar uma chegada na cidade para comermos algo.
	No, j comi o suficiente por hoje. Preferia dar uma volta pela praia.
	De terno?
	... de terno no vai dar. Acho que chamaria muito ateno.
	Vou vestir uma bermuda e uma camiseta: a roupa oficial do final do sculo vinte!
Suzy e Harry caminhavam lado a lado pela praia j quase deserta.
	Em que voc est pensando?  ela quis saber.
	Naquele comercial de televiso em que o noivo e a noiva caminham de mo dadas pela praia.
	Que coincidncia: eu tambm.
	Adoraria andar pela praia com voc vestida de noiva.
	Seria muito bonito.
	Vamos voltar e colocar a roupa do casamento?
	No d, Harry. Voc sabe que chamaramos muito ateno, No faz mal: agora sou um cidado americano.
	No, no podemos arriscar.  Ela estendeu-lhe a mo.   s imaginar que estamos vestidos com as roupas do nosso casamento.
	Estou achando voc muito triste.
	Estou apenas preocupada.
	Com o qu?
	Com o futuro.
	No pense, Suzy. Eu tambm no quero pensar.
	No sei, s vezes fico imaginando que tudo no passa de fantasias, que voc no existe e que  fruto da minha imaginao.
	Eu tambm tenho a mesma sensao. s vezes tenho a impresso que estou em 1813 escrevendo um livro de fico.
De mos dadas, os dois caminharam um longo trecho de praia em silncio.
De repente Harry a puxou para dentro do mar.
	A gua est tpida  ele disse.
	Neste caso, Harry,  melhor dizer que a gua est morna.
	Certo: a gua est morna, professora. E qual  a melhor palavra para dizer que quero beij-la.
	Para isso no existe uma palavra exata... 
Harry se aproximou de Suzy e a beijou com paixo.

Capitulo VIII

O luar, entrando pelas frestas da persiana, iluminava a cama onde Suzy e Harry dormiam abraados. Harry abriu os olhos, ajeitou o travesseiro e acariciou a cabea de Suzy que se encontrava recostada em seu peito.
Aquela tinha sido uma noite maravilhosa para os dois.
No, ele no fora o primeiro homem na vida de Suzy. Mas tambm ela no fora a primeira mulher na vida dele. E isso no tinha o menor problema. J estava na Amrica, em pleno final do sculo vinte, h muito tempo. Tempo suficiente para saber que a maioria das mulheres no eram virgens nesta sociedade moderna.
O fato de Suzy no ser mais virgem no o aborrecera nem um pouco. At tinha achado graa quando ela tentara lhe explicar o fato.
Mesmo assim naquele final de madrugada Harry sentia-se triste. Triste por no ter passado os ltimos trinta e dois anos ao lado de Suzy.
No a conhecera quando tinha cinco anos, nem aos dezoito quando o mundo se abria aos jovens. No conhecera Suzy, nem o mundo a qual pertencia.
Harry adoraria ter podido passar todos aqueles anos com Suzy. Confort-la quando perdera os pais aos vinte anos. Naquela poca, Suzy tinha comeado a enfrentar o mundo sozinha.
Apesar de tudo, agora ele estava ali para ajud-la, ampar-la no que fosse preciso. Como sara de 1813 para aparecer numa praia da Amrica, ele no conseguia entender. Mas talvez no houvesse nada para entender. Talvez o tempo no existisse e fosse apenas um detalhe incompreensvel para a Humanidade de todos os sculos.
O que importava era a felicidade que o invadia. Uma felicidade cheia de promessas futuras.
Qual mulher no mundo o aceitaria sem nenhum tipo de des-criminao? Nenhuma. S Suzy Harper era capaz de agir daquela maneira espontnea, generosa.
Sim, Suzy era uma mulher nica, especial. E agora ele estaria ali para dedicar-lhe o resto da vida.
Harry ficou observando o sono tranquilo de Suzy. Naquele instante ela mais parecia uma criana. Uma criana linda, cheia de possibilidades.
Aos poucos ele fora se adaptando aquela vida de surpresas que o sculo vinte lhe reservara. Tinha aprendido a falar de uma maneira diferente, tinha aprendido a no julgar o comportamento alheio. E devia a sua adaptao a Suzy. Fora ela quem, com pacincia, lhe ensinara tudo. E Harry sabia que ainda tinha muito o que aprender. No incio, o choque cultural fora muito grande. Cento e oitenta e um anos era um tempo longo demais. Durante esses anos todos tudo mudara.
Harry comeou a imaginar o que teria acontecido com ele caso outra pessoa o recolhesse da praia. Com toda certeza agora estaria preso, isolado da sociedade.
Mas o destino o entregara nas mos de uma mulher encantada. Encantada pela vida, apaixonada por tudo que a cercava. Apesar da civilizao, e dos seus trinta e dois anos, Suzy ainda via o mundo com os olhos de uma criana. E para uma criana tudo era possvel. At casar-se com um homem vindo do passado. Casar e se entregar a ele.
Harry, ao lembrar-se da noite de amor que tivera com Suzy, sorriu. Ele que sempre se mostrara muito confiante diante das mulheres com as quais fizera amor, sentira-se muito nervoso. Suzy, entendendo a insegurana e o medo que o havia invadido, portara-se de maneira amiga, compreensiva. Depois que ele comeou a sentir-se  vontade, os dois tinham atingido um prazer intenso, maravilhoso.
Harry se perguntava se para os homens do sculo vinte seria fcil conviver com uma mulher to diferente se comparada s do seu tempo e das prprias mulheres que ele agora encontrava nas ruas e na praia. No, os homens do sculo vinte tambm deveriam se sentir inseguros com mulheres to independentes, to donas do seu prprio destino.
	Harry?
Ele olhou para Suzy e adorou v-la despertar.
	O que foi, querida? Ser que acordou para compartilharmos o nosso desjejum?
	Compartilharmos o nosso desjejum...  ela repetiu as palavras de Harry.  Sabia que adoro quando voc fala desse jeito? Se no despertasse a curiosidade das pessoas, nunca iria querer que mudasse a sua maneira de falar.  
	Desde que eu no a chamasse de mulher, no ?
	O problema no era bem a palavra mulher, mas a maneira que voc a pronunciava. Existia muito autoritarismo na sua voz. E eu detesto as pessoas autoritrias.
	Hoje eu entendo voc...
	Entende mesmo?
	Entendo, sim  Harry passou a mo pelas costas de Suzy.  Estava pensando em como voc tem sido amiga, companheira... Sem a sua ajuda, eu estaria perdido aqui nesta terra.
	S fiz o que o meu corao mandou.
	E ele mandou que cuidasse de mim?
	Mais ou menos... No podia deixar desamparada uma pessoa to especial como voc.
	Especial? Eu?
	: voc.
	No sei se tenho alguma coisa de especial, a no ser o fato de ter vindo de um lugar que h muito tempo no existe mais.
	A Inglaterra ainda existe, Harry.
	Eu sei disso. Mas hoje l tambm deve ser tudo muito diferente.
	Poderamos fazer uma viagem at a Inglaterra. O que voc acha da ideia?
	A princpio acho a ideia muito boa. Mas tenho medo de voltar e rever os lugares que vivia at bem pouco tempo.
	Pouco tempo?  ela perguntou espantada.
	Para mim, embora tenham se passado tantos anos,  pouco tempo. s vezes tenho a sensao que estou apenas de frias num lugar extico.
	E aproveitou para casar-se com uma mulher tambm extica.
	No, no  isso. J pensou se eu pudesse voltar e contar aos meus amigos o que o futuro reserva  Humanidade? Eles iriam pensar que estou louco.
	Eu tambm pensaria.
	Voc?
	Se fosse uma mulher da sua poca acho que no iria acreditar que as mulheres do final do sculo vinte ainda so consideradas jovens aos trinta e dois anos. Tambm no acreditaria que elas andam quase despidas e com roupas transparentes...  Suzy deu um beijo no rosto de Harry e perguntou:  Como ? No est com fome?
	Voc  uma rapariga muito atrevida.
	Repete  ela pediu.  Repete.
	A senhorita... No! Senhorita, no. A senhora  uma rapariga muito atrevida.  Harry passou as mos pela cabea.  Viu s? Essa frase ficou muito ruim. Estou ficando super atrapalhado misturando o ingls da minha poca com o de agora. Mas o que foi que voc me perguntou?
	Estava querendo saber se no est com fome, senhor.
	Estou faminto.
	Que tal ento sair desta cama e ir preparar comida para ns?
	Eu? Sair do conforto do meu leito para preparar comida para uma mulher?
	Voc est falando srio?  ela perguntou meio confusa.
	Claro que no.  Ele pulou da cama.  Trarei o seu desjejum na cama, senhora.
Dez minutos mais tarde Harry entrava no quarto com uma bandeja nas mos. Caf, torradas, leite e frutas... Voc me trata muito bem, sr. Wilde.
Os dois sentaram-se na cama e, enquanto comiam, conversaram sobre os mais diversos assuntos.
	Deseja mais alguma coisa, madame?
	Sim: voc.
Harry colocou a bandeja sobre o criado-mudo e mais uma vez os dois fizeram amor. 
Duas semanas haviam se passado desde o casamento de Suzy e Harry. A felicidade que sentia era tanta que Suzy havia resolvido ficar mais um tempo na praia.
Suzy e Harry estavam se enxugando dentro do banheiro.
	Para mim esta  uma das maiores invenes do seu tempo.
	Sobre o qu voc est falando?
	Estou falando sobre o chuveiro eltrico.
	O chuveiro eltrico j est superado. Existe coisa melhor que isso.
	O qu, por exemplo?
	Uma banheira de hidromassagem. Ou como diriam vocs: uma tina de hidromassagem.
	Fale-me mais a respeito.
	No, eu no vou falar. Mas qualquer dia ns vamos experiment-la. Certo?
	Se prefere assim...
	Eu prefiro. Agora o que eu quero  saborear o pudim que me prometeu.
	Agora?
	E por que no? Ser a nossa sobremesa.
	Tudo bem. Vou prepar-lo.  Harry vestiu-se e saiu do banheiro.
Logo em seguida, Suzy foi encontr-lo na cozinha.
	Como  o nome do pudim que voc vai fazer?
	Pudim de Yorkshire.
	E voc j separou todos os ingredientes?
	Quase todos. A massa precisa ficar bem fluida.
	No dizemos fluida, Harry.
	Como  ento que vocs dizem?
	Lquida: a massa precisa ficar bem lquida.
	Obrigado por mais esta lio, professora.  Ele deu-lhe um beijo na testa.
Suzy estremeceu. Cada dia que passava ela se afeioava mais a Harry e fazia tudo para impression-lo. "Quero ver o dia em que ele conhecer outras mulheres... Na certa vou perd-lo!"
	Daria para voc pegar dois ovos para mim?
Suzy abriu a geladeira e entregou-lhe os ovos.
	No que voc est pensando?
	Em nada  ela mentiu.
	Isso no  possvel.

	Estava pensando na comida que fiz antes de irmos tomar banho.
	Tenho certeza que ela est uma delcia.
	No tenha tanta certeza assim, Harry.
	Mas voc tem se esforado, Suzy. Est certo que j queimou dois bolos, outros dois no cresceram... Mas o quinto estava uma delcia.
	Se eu no tivesse esquecido de colocar acar, o bolo teria ficado timo.
	No gosto muito de alimentos doces.
	Sei...  por isso que voc est fazendo esse pudim, no ?
	Suzy, voc  uma artista. Seu talento est todo concentrado na sensibilidade, nas sutilezas da alma.
	Agora eu adoraria que meu talento estivesse diretamente ligado ao estmago  ela disse frustrada.
	Com calma voc aprende os segredos da culinria. Minha me era uma excelente cozinheira.
"No! Eu no mereo isso! Agora ele vai me comparar com a me. E no existe dvida que no terei chance nenhuma nesta comparao", ela pensou aflita.
	Tudo o que aprendi na cozinha foi com ela  Harry continuou.
	Eu, at ns nos casarmos, o mximo que conseguia fazer era sanduche.
	Voc tambm sabia ligar o microondas  ele brincou.
Os dois continuaram conversando. Quando o pudim ficou pronto, Harry perguntou orgulhoso:  Ele no ficou lindo?
	Ficou.
	Igualzinho ao da minha me.
"De novo ele est me comparando  me!"
	Harry, enquanto voc limpa a cozinha, vou preparar a mesa para o jantar.
	Certo.
Suzy foi para a sala e arrumou a mesa com esmero. Quando os dois estavam para comear a jantar, Harry quis saber:
	O que  isso no centro da mesa?
	Um presente de casamento.
	Um presente de casamento?  ele perguntou espantado.
	. Hoje  tarde enquanto voc estava na praia a sra. O'Connell esteve aqui.
	Ela voltou?
	Voltou, sim. Disse que o lugar dela  aqui na casa de praia. Disse tambm que no aguenta mais o barulho da cidade grande.
	E o que  isso? Que presente  esse?
	De acordo com ela, uma obra de arte.  Suzy tocou de leve o pedao de madeira enfeitado com flores de plstico. No centro, pequenas conchas formavam os nomes Suzy e Harry.  Hoje eu sei como o meu pai se sentia quando em todas as festividades eu lhe presenteava com gravatas feitas por mim. Eu tenho muita pena da sra. O'Connell. Se tivesse tido oportunidade na vida ela teria se tornado uma grande artista. Mas como todas as mulheres do tempo dela, casou cedo, criou os filhos e no se dedicou absolutamente nada a sua formao.
	Voc acha mesmo que ela tem talento?
	Tem. Tem, sim. Um talento nato. Mas no  s o talento que faz um artista. O artista precisa trabalhar muito para conseguir expressar o seu tempo. Mas quer saber de uma coisa? No trocaria esse presente por nada. A sra. O'Connell fez esse trabalho para ns e isso me emociona muito.
	E voc s presenteou o seu pai com gravatas?  Harry colocou uma poro de rosbife no seu prato e outra no prato de Suzy.
	No, quando eu tinha uns nove ou dez anos, presentei o meu pai com um porta-cachimbo feito de sucata.
	Sucata? O que  isso?
	Material velho que encontrei no lixo.
	E o seu pai? Gostou?
	Meu pai adorou. E olha que ele nunca tinha posto um cachimbo na boca. Mas ele guardou aquilo como se fosse um verdadeiro tesouro. E  exatamente isso o que faremos com o presente da sra. O'Connell: iremos guard-lo como um verdadeiro tesouro.
	A comida vai esfriar  ele a alertou.
Suzy pegou a faca e o garfo e s ento olhou para o rosbife que Harry havia fatiado.
	No acredito! Ficou muito cru!
	Eu notei. Mas est saboroso...
	Daqui a pouco a carne vai comear a berrar. Detesto carne crua.
	No se aflija.  Harry pegou as duas pores de rosbife, colocou-os na travessa e foi para a cozinha. Suzy logo ouviu o barulho do forno sendo aberto.
Harry voltou e sentou-se  mesa.
	S precisamos ter um pouco de pacincia.
	Nada o faz perder o controle, Harry?  Suzy perguntou, esforando-se para no chorar de raiva.  Afinal, casou-se com uma mulher incompetente.
	Suzy, ns j conversamos a esse respeito  ele disse com pacincia.  No me casei com voc por causa de suas qualidades culinrias, acredite.
Quando o rosbife ficou pronto, Harry voltou a servi-lo e perguntou:
	E agora? Ele ficou bom?
	Ficou, sim.
	Viu s? Aos poucos voc vai aprendendo.
	Mas se demorar muito vamos acabar morrendo de fome.
	Isso eu lhe garanto que no.
	Se voc garante...  Suzy esforou-se para sorrir.
Aps saborearem o magnfico pudim de Yorkshire, Suzy e Harry foram passear pela praia.
	Estive pensando, Harry... Estou com vontade de voltar ama nh para Manhattan.
	 mesmo? E por que esta deciso repentina?
	No, ela no  repentina. J deveria estar l h muito tempo.
O que vejo  que estou adiando a minha vida...
Harry, apreensivo, ficou ouvindo as justificativas de Suzy.
	Por que de repente voc ficou to calado? No quer ir para Manhattan?
	Quero, quero sim. Estou louco para conhecer Nova York. Wilbur prometeu que vai passear muito comigo por l. Disse tambm que vai me levar para conhecer a editora dele.
	Mas voc me parece meio tenso.
	 que pela primeira vez terei que conviver com mais pessoas...
	Sei exatamente como est se sentindo. Mas tenha f: tudo vai dar certo.
	Wilbur  uma boa pessoa, mas ele j deveria ter me telefonado.
	E por que ele deveria ter lhe telefonado?

	Para me dizer se gostou ou no do meu manuscrito.
	O qu? Voc entregou o manuscrito a ele?
	Entreguei. No o manuscrito inteiro, mas uma parte dele. Como voc sabe, escrevi o manuscrito em cdigo e ainda no terminei de transcrev-lo.
	E por que fez isso? Voc enlouqueceu? Para mim voc no entregou o manuscrito!
	Adoro quando voc fica irracional!
	No, ainda estou gozando de plena racionalidade! Mas me diga: por que no entregou o manuscrito a mim?
	 simples: voc nunca se interessou por ele.
	Como eu nunca me interessei por ele? Eu apenas estava respeitando a sua privacidade. Tinha certeza que iria mostr-lo a mim assim que se sentisse  vontade. Eu sabia que aquele crpula do Wilbur o tempo todo estava com segundas intenes. Quando foi que entregou os papis a ele?
	Um dia depois do nosso casamento. Lembra-se que ele veio nos visitar?
	Tambm me lembro que ele resolveu ir embora muito de repente. Parecia que estava fugindo de algo! Eu vou acabar esganando aquele oportunista!
Se Ocean City havia surpreendido Harry, Nova York o estava deixando embasbacado.
	Como? Como podem ter construdo tantos prdios?
	 a civilizao, Harry... A to decantada civilizao...
	E as pessoas, ento, Suzy... So to estranhas... Usam roupas muito esquisitas...
	Harry, por favor, tente relaxar. Faz de conta que nada l fora est acontecendo. Ontem voc j mal conseguiu dormir.
	Tambm no era para menos, no ?  muita informao junta.
	J levei voc pra conhecer a Esttua da Liberdade. Que tal agora voltarmos para a minha casa? Acho que voc precisa descansar.
	Mas voc no disse que iramos a um restaurante chins?
	Podemos comer em casa.
	No se preocupe comigo, prefiro ir ao restaurante e...  Harry parou e apontou espantado:  O que  aquilo l?
	Aquilo  um homem sobre patins.
	Um homem? Com aquelas roupas. Parece, parece... no sei com o que ele se parece.
	De capacete e macaco ele mais parece um astronauta.
	Macaco? Astronauta? Ele est sozinho, Suzy. No estou vendo macaco nenhum.
Suzy caiu na gargalhada e explicou-lhe o sentido exato de cada palavra. Depois perguntou:
	Voc sabia que o homem j chegou na lua?
	Suzy... - ele comeou a falar num tom incrdulo , vim para c diretamente de 1813, mas posso lhe assegurar que no sou nenhum idiota. Imagine... Imagine se o homem j chegou na lua!
	E faz muitos anos que isso aconteceu, Harry.
	Voc s pode estar brincando comigo.
	No  brincadeira no, pode acreditar.
No restaurante Suzy continuou contando a Harry sobre os avanos tecnolgicos do sculo vinte. De repente um barulho o fez dar um pulo na cadeira.
	O que  isso?
	Calma,  apenas um telefone celular tocando.
	Telefone celular?
No instante em que Harry entendeu o que era a telefonia celular ele disse:
	Vou querer um telefone deste para mim.
	E posso saber para qu?
	Para poder ligar para voc quando bem entender. Tenho certeza que vou me perder nesta imensa cidade.
	Mas se isso acontecer, voc pode usar um orelho.
Imediatamente Harry levou as mos at as orelhas.
	Existe jeito de faz-las crescer? Existe jeito de me comunicar com voc sem usar nenhuma espcie de aparelho?
	No... no  nada disso!  Suzy no pde evitar outra gargalhada. Todos no restaurante se voltaram para eles.  Viu s? Estamos chamando a ateno dos outros.
	Ento me diga que histria  essa de orelho.
	Assim que terminarmos de almoar eu lhe mostro o que  um orelho.
E foi exatamente o que Suzy fez ao sarem do restaurante: de um telefone pblico, ligou para a casa de Wilbur e mais uma vez a empregada lhe informou que ele estava viajando.

Capitulo IX

No dia seguinte  noite, Suzy recebeu a visita da amiga Courtney Richardson e de Wilbur.
Sentada numa poltrona muito confortvel, Courtney comentava:
 O Japo  incrvel. Tquio, ento, nem se fala... Adoraria passar mais algum tempo por l, mas voc sabe como : para escrever preciso estar aqui em Nova York. Sem essa cidade no sou capaz de escrever nem uma linha. Mas o que me preocupa  a minha filha. Imagine se d para ela deixar os gmeos o tempo todo com a empregada. No, eu sou contra isso. As crianas precisam do afeto dos pais. Antes de ela se casar eu avisei que casamento no era brincadeira. E pedi para a minha filha pensar bem na responsabilidade que iria assumir. De nada adiantou. Sally se casou e onze meses depois nasciam os gmeos.
 ... casamento  algo muito srio.
As duas continuaram conversando. Wilbur, raramente dava algum palpite.
Harry, por sua vez, sentado em um banco perto do bar, prestava muita ateno na conversa. Por ele, diria tudo o que pensava a respeito da criao de filhos. Mas no podia se arriscar: precisava ficar calado o maior parte do tempo para no se trair.
Aquele mundo novo ao qual ele habitava h to pouco tempo no deixava de surpreend-lo. Como uma mulher to jovem quanto Courtney poderia ter uma filha casada, dois netos e ser uma escritora de sucesso? Isso era algo que no poderia entender. A carreira exigia muita dedicao. De repente Harry lembrou-se . que Suzy lhe dissera que Courtney tinha quarenta e quatro anos.
"Bem, ela no  to jovem assim... Mas no aparenta quarenta e quatro anos. Na minha poca, uma mulher com essa idade... Bem, o melhor que tenho a fazer  esquecer a minha poca..."
Harry continuou escutando a conversa das duas. Courtney parecia gostar muito de Suzy. Tudo indicava que tratava-se de uma boa amiga.
Harry a cada instante que passava gostava mais de Courtney. Afinal, se ela demonstrava tanto afeto pela mulher singular que o destino escolhera para tornar-se sua esposa, tambm deveria ser uma pessoa especial.
	Quer dizer ento que voc resolveu se casar? Quem diria, hem amiga? Suzy Harper casada!  inacreditvel!
	Suzy Wilde!  Ela mostrou a aliana com orgulho.
	Voc vai mudar de nome?
	Eu j mudei.
	No, Suzy, estou querendo saber se profissionalmente voc continuar sendo Suzy Harper.
	Isso ainda no decidi. Provavelmente continue como Suzy Harper, afinal j sou um pouco conhecida.
	Mas Suzy Wilde tambm  um nome artisticamente muito bom.
	 sim...  Suzy olhou para Harry e sorriu.
	O que voc acha, Harry?  Courtney perguntou.
	A deciso  de Suzy. O que ela fizer est timo para mim.
	Meu Deus... mas que homem!  a amiga brincou.  Mas bem que merecia uma pessoa como Harry, querida. Ele parece que foi feito sob medida para voc.
Harry se levantou e se dirigiu  cozinha. Alguns minutos depois, Wilbur tambm se levantou e foi procur-lo.
	E como tem se sentido como um homem casado?
	Nunca me senti melhor na vida.
	Voc e Suzy se do muito bem. Ela at parece uma outra pessoa. Est mais tranquila, mais adulta.
	Suzy  uma pessoa muito adulta.
	E responsvel tambm. Infelizmente, tem muita gente que ainda acredita que os artistas so um bando de irresponsveis. Sabia que Suzy nunca entregou um trabalho fora do prazo? Ela  uma excelente profissional.
	Tambm, trabalhando do jeito que trabalha...
	E por falar em trabalho, gostei muito da parte do manuscrito que voc me entregou. Ele est primoroso.
Harry se assustou. Desde que entregara os papis a Wilbur, ' vinha se sentindo muito inseguro. Estava certo que ningum nascido depois de 1800 se interessaria pelo que escrevia.
	Como , meu rapaz? No vai fazer nenhum comentrio?
	Claro, claro que vou... Estou feliz que tenha gostado do que escrevi. Infelizmente voc s viu uma parte dele. A histria fica muito melhor depois quando escrevo sobre tudo o que estava acontecendo na Inglaterra em 1812.
Ao pronunciar aquela data, Harry viu que havia falado demais. Por que no ficara quieto e deixado que Wilbur fizesse os comentrios? Agora, se no tivesse o mximo de cuidado, fatalmente poria tudo a perder. O segredo que s Suzy sabia poderia ser descoberto.
Wilbur encostou-se na mesa e, enquanto Harry serviu-se de um copo d'gua, continuou:
	Realmente o seu trabalho  muito bom. E olhe que eu sei muito bem do que estou falando. Trabalhei a minha vida inteira com livros e nunca errei. Quando o original  bom, eu logo o reconheo. O que voc me entregou  uma fascinante histria de poca. E a maneira que enfoca os problemas, as descries que faz... Tudo me leva a crer que estudou muito esse perodo. E to realista, estimulante...
Harry, disposto a no fazer o menor comentrio que o colocasse em uma situao ruim, deu um sorriso.
	Sabe  Wilbur continuou , o que me deixa profundamente admirado  um livro como aquele estar sendo escrito  mo. Estamos na Era do computador, Harry, voc precisa se atualizar.
	Ainda fao parte de uma gerao de escritores que detesta computadores.
Pela reao de Wilbur, Harry percebeu que sara-se muito bem com o que tinha acabado de dizer.
	Conheo muitos escritores que tambm se negam a trabalhar com computador. Mas estes sobre os quais estou falando usam mquina de datilografia.
Harry respirou aliviado. Ainda bem que Suzy lhe explicara tudo sobre os antigos e os mais novos meios que existiam para escrever.
	Pois , meu caro Wilbur, quem sabe um dia eu me arrisco a comprar um computador...
	No  risco.  uma garantia. Uma garantia de um trabalho mais rpido e bem melhor. Depois que voc usar um computador, tenho certeza que deixar essa mania de escrever  mo. Pelo jeito terei que esperar muito tempo para publicar o seu livro.
	Quer dizer ento que est pretendendo public-lo?

	Quanto a isso no tenha a menor dvida. Farei dele um grande sucesso. Em poucas semanas ele ser o mais vendido da Amrica! A maneira que voc escreve me fez lembrar George Byron. Faz uns vinte anos que no leio um livro de fico to bom.
	Fico?  O alvio de Harry agora era bem maior. Wilbur parecia no ter percebido nada.  Eu sempre gostei muito de fico. Mas nunca pensei em ser comparado com George Byron. H uns quinze dias li um livro dele e fiquei impressionado com a maneira que escreve.
	Voc s o leu h uns quinze dias? Pensei que Byron fosse leitura obrigatria em todas as escolas inglesas  Wilbur comentou com uma certa desconfiana.
Harry logo percebeu que aquele comentrio sobre o escritor tinha sido totalmente inapropriado e tentou consertar:
	Mas  claro que li Byron na minha adolescncia. Mas s agora consegui realmente apreciar a leitura. Sabe como so os jovens, no sabe?
	Est a uma pergunta muito interessante. s vezes tenho a sensao que nunca fui jovem.  Wilbur sorriu.  Outras vezes a sensao  de que nunca cresci. Voc me entende? Mas vamos deixar isso para l. Temos coisas muito mais importantes para discutirmos.
	Coisas mais importantes?
	: contrato, adiantamento de pagamento...
	Agora? Voc quer discutir sobre isso agora?
	Acha melhor conversarmos sobre isso numa outra hora?
	Eu acho, sim.  Mais do que nunca Harry sabia que pre cisava da ajuda de Suzy.
	Pois ento vamos voltar para a sala. Uma outra hora ns falamos sobre isso. Mas nosso acordo est selado, no est?
Harry no podia acreditar em tudo o que estava acontecendo. Era bom demais para ser verdade! A vontade dele era de abraar o editor e beij-lo no rosto. Estava na Amrica do sculo vinte, casado com uma mulher maravilhosa e, pelo jeito, iria poder sustent-la da maneira que achava que um homem devia fazer.
	Voc no est brincando comigo, est? Vai mesmo publicar o meu livro, no  Wilbur?
	Eu nunca brinco em servio, meu rapaz.  Wilbur se aproximou de Harry e o segurou pelo cotovelo.  Se tiver dvida de tudo o que eu falei, pergunte a Courtney. Mas me diga uma coisa: como  que veio parar no sculo vinte?
Harry estremeceu com aquela pergunta. Suzy sempre tivera razo: o editor era um homem bastante perigoso. Nada lhe escapava. S que no dava mais para negar o bvio.
	Voc sabe de tudo  Harry disse desesperado.  Meu Deus do cu, Wilbur, desde quando isso vem acontecendo?
	Suspeitei da verdade desde a primeira vez que o vi. At hoje  muito difcil de acreditar, mas sempre soube quem voc era. Tudo comeou com o telefonema de Courtney.
	Aquele que ela fez do Japo?
	Exatamente. A histria de Suzy querer escrever um livro estava muito mal contada. Ela queria saber como o heri do livro poderia conseguir uma identidade aqui na Amrica, lembra-se?
	Lembro, sim...
	No incio imaginei que Suzy estaria se relacionando com algum estrangeiro que tivesse entrado de modo ilegal no pas.
A resolvi ir at Ocean City para verificar tudo com os meus prprios olhos. Devagar uma hiptese fantstica foi se formando na minha cabea: a maneira de voc agir, seu modo de falar... Mesmo assim achava que eu poderia estar enlouquecendo. Mas depois que me encomendou aquele vestido de noiva e li o que voc escreveu, no tive mais a menor dvida.
	Por que voc no me denunciou?
	Eu nunca faria isso. Logo vi que era um bom moo, exatamente o homem que faltava na vida de Suzy. Conheo Suzy h dez anos e nunca a vi to feliz. Por que isso tudo aconteceu eu no sei. No saberia explicar. Voc poderia ter ido parar em qualquer lugar da Terra e ter se encontrado com qualquer mulher do passado, do presente ou do futuro. Mas veio parar em 1994.
E foi Suzy quem o encontrou. Ela sempre viveu situaes muito estranhas.
	Suzy  uma mulher muito especial.
	Sei disso. E olhe para ela: nunca a vi to radiante, to tranquila.  Wilbur levou Harry at a porta da cozinha de onde os dois podiam enxerg-la.  Voc fez bem a Suzy. Sei que nunca faria nada para mago-la.
	Wilbur, eu...
	No precisa dizer nada, Harry. Sei que deve estar se sentindo inseguro, mas se a ama de verdade nada de mal vai acontecer a vocs dois. Tudo o que lhe peo  que seja bom e compreensivo com Suzy. Ela  uma artista fabulosa, uma grande mulher.
	Eu a farei muito feliz.
	Se isso no acontecer, se voc ousar faz-la sofrer, pode acreditar que eu o destruirei.
	Isso nunca ir acontecer.  uma promessa de cavalheiro, senhor  Harry disse inclinando-se um pouco em frente ao editor.  Suzy ainda no sabe, mas eu a amo de todo corao. Como o senhor mesmo disse, ela  uma grande mulher.
	Acredito nas suas palavras, Harry Wilde.  Wilbur sorriu satisfeito e de repente mudou completamente de assunto:  Depois de publicar esse seu primeiro livro, quero que escreva um outro de fico que fale sobre viagem atravs do tempo.
	Outro livro?
	Harry, tenho certeza que logo voc ser um dos autores mais lidos em nosso pas. E, depois de algum tempo, o mundo inteiro ir conhec-lo.
	E voc no acha que se escrevo sobre viagens atravs do tempo as pessoas no iro desconfiar?
	Infelizmente, na nossa sociedade, os artistas so tidos como malucos pela a maioria das pessoas. Ningum vai desconfiar, acredite. Mas o que eu quero para voc no  apenas uma carreira rpida. No, voc tem muito talento. Far uma carreira longa e de muito sucesso.
	Obrigado por tudo, Wilbur.
	No agradea. Vou ganhar muito dinheiro a sua custa, meu rapaz...
Harry foi at a janela e ficou olhando a imensido de Nova York. Realmente a Amrica era a terra das oportunidades. Durante anos, quando jovem, pensara em imigrar para aquele pas distante. At que um dia resolvera alistar-se no exrcito e se vira a bordo d Pegasus. Algo o chamava, algo lhe dizia que precisava deixar a Inglaterra.
Harry comeou a pensar no pai que sempre o incentivara, que sempre acreditara que ele poderia se tornar um escritor. Se ele o visse agora iria sentir-se muito orgulhoso. "Embora meu pai esteja morto, talvez ele at saiba o que est acontecendo comigo. Existem muitos mistrios no mundo, mistrios que a alma humana no alcana. Eu sempre pensei que viajar atravs do tempo fosse algo impossvel, mas hoje sei que na vida nada  impossvel!"
	Por que est a sozinho, meu rapaz? Venha para c. Ser que algo o entristeceu?
Harry balanou a cabea e viu que estivera ausente por alguns segundos. Wilbur o chamava da sala. Suzy levantou-se e foi at a cozinha.
	O que aconteceu, Harry?  Suzy perguntou preocupada.
	Ele sabe.
- Ele? Wilbur? Ele sabe? Mas sabe do qu?  Ela o segurou pelo brao.  Voc est bem? Acho melhor descansar um pouco. No, infelizmente voc no pode descansar agora. Aconteceu algo e eu preciso lhe contar assim que convencer os meus amigos que precisamos ficar sozinhos. 
S ento Harry notou que Suzy estava um pouco plida. O que teria acontecido entre ela e Courtney na sala? Ser que a escritora tambm sabia da verdade?
	Ele sabe  Harry voltou a repetir.  Wilbur sabe de onde eu vim.
- No brinque comigo, Harry Wilde.
	Eu no estou brincando. Wilbur sempre desconfiou. E eu acabei de confirmar tudo a ele.
	Isso foi trapaa daquele crpula.  Suzy esforava-se para no gritar.  Trapaa! Como foi que aquela cobra conseguiu engan-lo? Como foi que Wilbur conseguiu enganar voc, Harry? Foi contar a ele o segredo mais importante da sua vida? Hones tamente, no esperava que fizesse isso. E depois dizem que so as mulheres que no sabem guardar segredos. Mas se Wilbur ousar fazer algo contra voc, ele vai ver quem  Suzy Harper! Ele vai ver do que sou capaz! Mas ainda bem que  s ele que sabe da verdade.  Suzy parou um pouco de falar e em seguida perguntou:  Harry Wilde, voc contou o nosso segredo a mais algum?
	No, no contei. E Wilbur comprou o meu livro.
	O qu?  Ela estava muito espantada.  Daria para voc fazer o favor de repetir o que acabou de dizer?
	Wilbur comprou o meu livro e vai public-lo.
	 verdade?  verdade que Wilbur comprou o seu livro?
	E verdade, sim.

	Oh, Harry...  Suzy deu-lhe um grande abrao.  Mas que maravilha! Parabns.
	Obrigado, muito obrigado.
Suzy olhou pra Harry e no pde se conter. Ela o beijou com muita paixo.
	Posso presumir que voc ficou muito feliz com a notcia?
	E voc ainda pergunta? Estou muito mais que feliz: estou exultante!
	Quer dizer ento que quando fica exultante voc beija a primeira pessoa que aparece pela sua frente?
	Eu no beijei a primeira pessoa que apareceu pela minha frente. Eu beijei o meu marido. 
Harry, com um olhar felino, se aproximou mais de Suzy.
	Harry, no comece. Tem gente l na sala. E se quer mesmo saber da verdade, quando fico muito feliz beijo qualquer estranho que esteja na minha frente.
	Mentira.  Ele a abraou.  Voc est mentindo, Suzy Harper.
	Me solte, Harry. Vamos para a sala conversar com Wilbur e com a Courtney. Apesar de tudo, eu ainda continuo desconfiando de Wilbur. E se vai mesmo assinar um contrato com ele, voc precisa de um agente. Hoje em dia no d mais para se confiar em ningum.  Suzy se desvencilhou do abrao de Harry e o puxou para a sala.
Wilbur e Courtney tinham ido embora.
	Como  que no ouvi quando eles saram?
	Mas eu ouvi a porta sendo fechada com muito cuidado. 	Harry a abraou de novo. - Acho que sua manifestao pblica de afeto os deixou constrangido.
	Wilbur e Courtney? Constrangidos por causa de um beijo?
Imagine... Harry Wilde, o senhor ainda tem muito que aprender sobre a nossa civilizao.  Ela o empurrou para o sof.
	Pelo jeito a senhora est ainda bastante exultante.
	O senhor nem imagina o quanto! Mas eu entendo a atitude dos meus amigos. Wilbur sempre disse que me daria milhares de dlares para me ver...
	Para v-la de que maneira?  Harry a interrompeu.  Casada? Ou quem sabe esses milhares de dlares estariam condicionados a v-la beijando algum na cozinha?
	Voc est falando daquela maneira estranha de novo... Mas no  nada disso...
	Ah... quer dizer que eu me enganei? Deixa eu ver se acerto agora: Wilbur oferecia os milhares de dlares para v-la apaixonada?  isso?
	Eu sempre falo demais...  Suzy fingiu-se arrependida.
	Viu s? Mais uma coisa que temos em comum: ambos falamos demais.  Harry a puxou para o seu colo e quis saber:
	E ento?
	Ento o qu?
	Voc me ama?
	Tudo bem, tudo bem... J que no d para continuar lhe enganando, vamos  verdade: eu te amo, sim. Satisfeito?
	Muito.
	No sei como isso foi acontecer, mas no posso fugir  realidade.
	Sabia que eu tambm a amo?
	Voc s pode estar brincando comigo. Voc? Voc amando uma mulher de trinta e dois anos?
	Voc tem todas as idades Suzy, e  a mulher mais fantstica, mais generosa de todo o Universo.
	Tambm no precisa exagerar.  Ela beijou-lhe ponta do nariz.
	No estou exagerando. Apesar de ser uma pssima cozi nheira, quero passar o resto da minha vida com voc.
	Essa  a declarao de amor mais original que ouvi.  Ela saiu do colo de Harry.
	O que aconteceu?
	Estamos com um problema.
	Outro?  Ele sorriu.  Desde que nos conhecemos s temos resolvidos problemas. J estou ficando expert em resolv-los.
	Aqui est o nosso problema.  Suzy pegou algumas pginas de papel que estavam sobre a mesinha de centro e os entregou a Harry.
	O que  isso?
	Voc no vai acreditar, mas  a sinopse do prximo livro de Courtney. Eu dei a inspirao a ela.
	Isso  muito bom.
	Seria muito bom caso a minha amiga no tivesse resolvido escrever sobre um homem que vem do passado.

	Mas eu no vejo inconveniente nenhum que ela escreva sobre esse assunto.
	No v, no ? Pois Courtney ficou na sala discutindo comigo o final que deve dar  histria.
	E voc? O que fez?
	Disfarcei, falei uma poro de besteira... E voc sabe que para mim isso no  nada difcil.
	No se subestime, minha querida.
	No estou me subestimando, mas quando eu quero fao qualquer um imaginar que no gozo plenamente das minhas faculdades mentais.
	E, pelo jeito, voc se diverte muito com isso.
	Profundamente. Mas voltemos a Courtney. O que eu digo quando ela voltar a me procurar?
	Se ela estiver muito insegura quanto o final do livro, ajude-a.
	Mas como?
	No sei... Use essa sua imaginao fantstica. Mas uma coisa me deixa muito intrigado: como  que uma escritora to famosa quanto Courtney pode estar insegura para escrever o final de uma histria?
	Pois ... Essa  exatamente a pergunta que estou me fazendo.

Capitulo X

Suzy, depois daquela conversa que tivera com Har-ry, passara o dia inteiro muito preocupada. A noite, aps terem feito amor, ela lhe contou o que estava acontecendo.
	Por isso decidi que devemos voltar para Ocean City, Harry.
	Quer dizer ento que est pretendendo visitar o museu de l?;
	Exatamente.
	A, dependendo do que aconteceu com o Pegasus, acredita que vai ficar sabendo o que o futuro nos reserva?
	 isso:  isso o que temos que fazer.
	Meu amor, voc no acha essa ideia um tanto extravagante?
	Extravagante? Olha l quem est dizendo uma coisa dessas! Se esqueceu que veio do sculo passado, moo? Quer ideia mais extravagante do que essa?
	Voc est certa. s vezes acho que nasci h trinta  cinco anos aqui nos Estados Unidos. Mas para que voltar a Ocean City?
	 intuio, pura intuio. Se houver alguma referncia sobre o que aconteceu com o Pegasus, tenho certeza que est no museu de l.
	E quando voc est pretendendo voltar?
	Amanh bem cedo.
	E onde ficaremos?
	Na mesma casa. Eu a aluguei at o final do ms.
	Suzy, voc sabe que fao qualquer coisa para v-la tranquila.
Se acha conveniente que a gente v at Ocean City, para mim no tem o menor problema.
Aps uma noite de sono, os dois acordaram cedo e partiram para Ocean City.
	Assim que der certo, eu tirarei um carteira de motorista. Voc acha que vou conseguir?
	Quanto a isso no tenho a menor dvida.
	Deve ser muito bom dirigir um carro.
	Sabe que eu no gosto muito?
	No?
	S dirijo porque  extremamente necessrio. Por mim no existiriam carros, avies...
	Mas Suzy:  o progresso!
	Um progresso que se esqueceu do ser humano, da qualidade de vida...
E os dois continuaram conversando sobre durante todo o trajeto.
Quando j se aproximavam da cidade, nuvens escuras cobriam o cu.
Parece que uma nova tempestade se anunciaHarry comentou.
 E verdade  ela disse apreensiva.
Suzy se lembrou da primeira tempestade que enfrentara em Ocean City h muitos anos. De repente o cu havia escurecido e comeara a trovejar. Um vento muito forte fez com que todos sassem correndo  procura de abrigo. Depois? Chuva, muita chuva.
Agora uma nova tempestade iria cair sobre a regio. Suzy estremeceu. E aquela tempestade poderia levar Harry. Ela acelerou.
	Por que voc est correndo tanto?
	Quero chegar, antes da chuva.
	Mas  perigoso ele a advertiu.
	Mais perigoso  enfrentar a tempestade fora de casa.
De repente a chuva comeou a cair. O barulho dos troves era ensurdecedor.
	Ultrapasse aquela ponte e pare no acostamento. No po demos continuar, querida.
	Ns temos, temos que continuar.
Harry ficou em silncio. Suzy se perguntava se ele estaria pensando o mesmo que ela. Mas no ousou perguntar.
	Suzy, acho melhor voc parar no acostamento. No est dando mais para se enxergar a estrada.
	Nada vai me fazer parar, Harry. Nada! Precisamos chegar em casa. Quero que fique bem longe desta tempestade.
Suzy e Harry viveram momentos de muita tenso. Finalmente os dois estacionaram em frente  casa de praia.
	Vamos, corra! Precisamos sair daqui!
Harry saiu apressado de dentro de carro e ficou ao lado de Suzy que, muito nervosa, no conseguia colocar a chave na fechadura.
	Era s essa que me faltava agora.
Harry tirou-lhe a chave da mo.
	Isso, tente voc, querido, para mim est sendo impossvel.
Harry, ao invs de abrir a porta, colocou a chave dentro do bolso.
 
	Por que voc fez isso? Harry, no podemos ficar aqui. Essa tempestade...
	Venha, vamos andar um pouco pela praia.
De jeito nenhum. Voc no entende o perigo que est correndo?
	Venha, no se preocupe...
	Como eu no vou me preocupar? J estamos inteirinhos molhados.
	Gosto de ver voc assim... Esse vestido colado ao seu corpo a deixa muito sensual.
	Harry Wilde! Estou quase entrando em pnico e voc vem me falar em sensualidade? Isso no  hora para essas coisas.
	Suzy, aprendi que no existe hora marcada para nada. Ve nha, s quero andar pela praia com voc.
Suzy viu que no dava mais para continuar resistindo aos apelos de Harry.
Os dois andaram devagar pela praia at chegarem perto de um ancoradouro.
	Esse  o ltimo lugar no mundo em que deveria estar. Voc precisa ficar longe das tempestades.
	O que eu preciso mesmo, minha querida,  de voc. E no quero v-la to apavorada sempre que aparecer uma tempestade. Vamos ficar naquela cabana ao lado do ancoradouro.
	Harry, entenda: ela fica muito prxima ao mar.
	Suzy, no precisa ficar to nervosa.  Ele colocou-lhe a mo sobre o ombro e a guiou at a cabana. Em seguida, Harry a abraou.  Voc est tremendo...
	E voc queria o qu? Estou apavorada.
	J disse que no precisa ficar nervosa. Eu no vou embora.
	Acho bom mesmo.
	Mas Suzy, voc realmente acredita que se uma tempestade me trouxe at voc, uma outra vai me levar embora?
	Acredito.
	E se eu tivesse que voltar ao passado, voc iria comigo?
	Claro que sim. No quero perd-lo, Harry.
	Voc voltaria para 1813 s para ficarmos juntos?
	Voltaria para 1813, para 1500. No me interessa o ano ou a poca. Tudo o que quero na vida  ficar com voc.  Suzy comeou a chorar.
	Est sendo sincera, Suzy?
	E voc ainda duvida?  Suzy saiu at a porta da cabana e comeou gritar:  Al! Al! Tenha voc o nome que tiver: Olho, ou qualquer coisa parecida! Se for levar Harry Wilde, tambm quero ir junto! Est ouvindo? Tambm quero ir junto!
	Ah, meu amor... nada vai me separar de voc. Nada.  Ele a beijou com paixo.
	Como  que sabe que nada vai nos separar?
	No saberia lhe explicar. Mas o fato de no se importar em deixar tudo o que tem aqui no final do sculo vinte foi uma grande demonstrao de amor.
Harry passou as mos pelo corpo de Suzy numa urgncia in-controlvel e a despiu.
	Voc  linda, linda... - Harry olhou encantado para ela e a ajudou a deitar-se sobre umas lonas que se encontravam num canto da cabana.
L fora a tempestade continuava. Vento, chuva e o barulho dos troves. Dentro da cabana um homem e uma mulher se amavam com loucura. Suzy nunca se sentira to viva, to inteira, to livre para expressar todos os seus mais ntimos desejos.
Gritos de paixo se misturavam ao vento e eram levados para longe.
Suzy e Harry chegaram juntos ao orgasmo. Para eles nada mais importava, s os seus corpos saciados, sfregos.
Quando a respirao dos dois voltava ao normal, perceberam que a tempestade tinha ido embora. Naquela noite, Harry resolveu fazer um jantar para Suzy. Ela merecia ser mimada, merecia todo o carinho do mundo.
Quando j estavam na cama, prontos para dormir, ele comentou: .    Hoje na cabana voc me amou de uma maneira selvagem.
	Eu estava me sentindo selvagem, querido... Acho que o medo de perd-lo e aquela tempestade ajudaram que eu conhecesse um parte de mim que eu nem supunha existir.
	Uma parte muito bonita, por sinal.
	Era como se de repente toda aquela fora da natureza, o vento, a chuva, tivesse rompido as amarras, amarras que de maneira hipcrita sufocaram todas as mulheres durante sculos. Eu poderia abrir os olhos e no t-lo mais junto a mim. Tambm poderia abrir os olhos e estar em outro sculo... Nada mais me importava: s ns dois. Ns dois e o nosso amor.
Suzy recostou a cabea sobre o peito de Harry e os dois dormiram tranquilos.
Na manh seguinte quando acordou, Harry estava com uma ideia na cabea. Algum sonho que havia tido o fazia lembrar-se do dia em que fora com Suzy aos cemitrios.
Depois de levar-lhe o caf da manh na cama, ele lhe contou sobre o sonho.
	 estranho esse sonho, querido... No consegue lembrar-se mais detalhes?
	No. Mas quero voltar naquele ltimo cemitrio.
Por mim est tudo bem. Se quiser podemos voltar l hoje mesmo.
	 o que vamos fazer assim que nos trocarmos. Sei que preciso encontrar de novo aquele tmulo de William Robert Arthur.
Suzy saiu da cama e, depois de um longo banho, colocou um conjunto de moletom vermelho.
Ao v-la, Harry que tambm usava um conjunto de moletom vermelho disse:
	Essa cor lhe cai muito bem.
	Voc tambm fica muito bem de vermelho, Harry.
   Mas voc acha essa cor adequada para ir at um cemitrio?
	Pensando bem, acho, sim. Por que a maioria das pessoas usam preto quando vo a um cemitrio? No, precisamos pensar na morte como algo positivo e usar cores vivas quando a reverenciamos. A morte  uma contingncia humana. Isso, se ela existir.
	E verdade. Voc me convenceu.
Ao chegarem no cemitrio os dois no se lembravam direito onde se encontrava o tmulo que estavam procurando. Depois de andarem durante meia hora por entre as sepulturas, Suzy apontou uma travessa e disse:
	Acho que fica logo ali.
	Como  que voc sabe?
	Por causa daquelas pedras maiores do lado esquerdo.
De mos dadas, os dois comearam a percorrer a travessa. Harry fora invadido por uma estranha sensao. Anteriormente quando esteve ali, uma sensao semelhante o deixara um tanto incomodado. Daquela vez achara que era por causa da emoo de estar procurando um novo nome para ele. Porm, agora, sabia que tratava-se de algo diferente. Mas ele no disse nada  Suzy.
	Olha: aqui est o tmulo do Willian Robert Arthur. Quer parar um pouco?  ela perguntou.
 No, vamos continuar.
Aps mais alguns passos, Harry parou e ajoelhou-se diante de uma velha lpide. Nela, uma inscrio j quase gasta pelo tempo, dizia:
Aqui jaz Harry Wilde, um marinheiro ingls do navio Pegasus, que se afogou em 4 agosto de 1813.
	Harry! Voc se afogou!
Harry virou-se para Suzy e ficou muito chateado pois ela o fitava como se estivesse diante de um fantasma. Ser que era mesmo um fantasma? Mas ele no se sentia como um fantasma. E nem acreditava em fantasmas. Bem, mas at pouco tempo atrs ele tambm no acreditava em viagens atravs do tempo...
	No sei, no sei se me afoguei  ele disse um tanto reticente. Era muito esquisito ler uma lpide com o seu prprio nome.  O que voc acha disso tudo, querida?
	O que eu acho? Bem, eu acho que mais do que nunca devemos dar uma chegadinha ao museu.
Em silncio, os dois entraram no carro e rumaram para o museu. Apesar do silncio, Harry sabia que a cabea de Suzy estava num grande tumulto. Na certa ela tecia consideraes, levantava mil hipteses, tudo para explicar o aparecimento dele na praia e aquela lpide no cemitrio. Mas ser que haveria algum tipo de explicao pelo menos razovel para o fenmeno?
"Fenmeno? Ser que eu sou um fenmeno?", Harry se perguntava em pensamentos. "O que realmente aconteceu comigo? Como pude de repente sair do incio do sculo dezenove e vir parar no final do sculo vinte?"
Suzy estacionou diante do museu e quando j andavam pelos jardins muito bem cuidados. Harry quis saber:
- Ser que fantasmas podem ter filhos?
	No diga uma asneira dessa, Harry. Voc no  um fantasma! Est certo que at hoje eu no fui uma pessoa muito normal, mas me recuso a acreditar que me casei com um fantasma! Viver com um homem que viajou atravs do tempo  uma ideia muito aceitvel para mim, no me causa medo ou pnico. Mas um fantasma? Isso j seria demais, Harry, mesmo para mim.
Harry, com um sinal afirmativo de cabea, concordou com as palavras de Suzy. Afinal, no tinha outra opo. Mesmo assim continuou pensando no assunto e chegou  concluso que poderia ser apenas fruto da imaginao frtil de Suzy. Ou ela era fruto da imaginao dele? De repente, Harry estremeceu. E se ele fosse mesmo um fantasma? Precisava tambm considerar essa hiptese sem nenhum tipo de preconceito. Mas fantasma no possua corpo fsico. Ou possua? No, fantasma era fantasma. Nunca ouvira falar que fantasma tinha corpo fsico.
"Talvez eu tenha deixado o meu corpo verdadeiro no mar e viajado atravs do tempo com um novo corpo. Tambm posso ter deixado o meu corpo verdadeiro no mar, viajado pelo tempo apenas com o meu esprito, e adquirido esse novo corpo depois..."
	Voc est com medo?  ela perguntou quando j haviam ultrapassado a entrada do museu.
	Petrificado  ele respondeu com sinceridade.
O museu era muito interessantes, mas Harry no conseguia enxergar quase nada ali dentro, tamanha a preocupao que sentia.
	Estamos perdendo o nosso tempo, Suzy, no vamos en contrar nada aqui sobre o Pegasus.
Suzy, que havia parado diante de uma srie de bonecas chinesas muito antigas, o encarou e perguntou:
	Como  que voc sabe que no iremos encontrar nada sobre o Pegasus aqui dentro? O museu  muito grande.
	Ser que eu ouvi algum dizer Pegasus?  uma senhora de idade virou-se para fit-los.
Suzy e Harry permaneceram calados. A mulher continuou:
	Pegasus.. Pegasus... Esse nome me soa muito familiar. Vocs so turistas?.
	Somos...  Suzy forou um sorriso.
	Mas eu sou professor  Harry mentiu, tentando j prevenir algum tipo de mal entendido.  Professor de Histria. Havia um navio ingls chamado Pegasus durante a guerra de 1812 e parece que ele andou navegando aqui por perto.
	Agora eu me lembrei!  A mulher olhou para Suzy.  Minha memria no anda muito boa.  Pegasus era o navio do velho Harry.
	Velho Harry?  Suzy perguntou espantada.  Mas quem  esse homem?
	Vocs nunca ouviram falar no velho Harry?
	No, somos turistas.
	Esperem um pouco para eu me lembrar de alguns detalhes. 	A mulher fechou os olhos e, aps alguns segundos, os abriu feliz.  Contam que uma terrvel tempestade pegou o Pegasus no mar. Felizmente o Pegasus no sofreu muitas avarias como um outro navio de nome Sinda. Mas parece que um dos marinheiros do Pegasus foi tragado pelo mar e o seu corpo foi encontrado na praia.
A mulher fez uma pausa. Suzy e Harry trocavam olhares aflitos.
	Por favor, minha, senhora, continue  Harry pediu. Dentro do peito seu corao batia completamente descompassado.
	Acho que no tem mais nada de interessante nesta histria. O corpo do marinheiro foi enterrado num cemitrio aqui da cidade.
	A mulher fez outra pausa.  Ah... parece que o marinheiro tambm carregava uma bolsa.
	Bolsa?  Harry quase gritou.
	, filho, uma bolsa... No dessas que se usa atualmente, acho que era um embornal... O pobre do Harry usava o embornal a tiracolo quando morreu. E parece que era bem pesado.
	Quem era pesado? O embornal ou o Harry?  Suzy perguntou aflita.
	O embornal, filha.
	Ento tinha muita coisa dentro dele.
	Tinha, sim: moedas de ouro, papis de identificao e uma manuscrito escrito em cdigo. Pelo que sei ningum conseguiu identificar aqueles escritos.
	E o que fizeram com os papis?
	O museu at bem pouco tempo mantinha esse embornal na ltima sala  esquerda. Mas de repente ele desapareceu. Ningum entende porque algum poderia querer aqueles papis.
Suzy e Harry trocaram olhares cmplices. "Na certa o meu corpo tambm no est na sepultura", Harry pensou com um certo prazer.
	Mas esse desaparecimento do embornal s vai fazer com que mais histrias sobre o velho Harry sejam criadas.
	Histrias?  Suzy perguntou.
	, minha filha... Existem muitas histrias sobre o velho Harry. Basta comprar um desses livros sobre os fantasmas de Nova Jersey. Sempre tm uma ou outra histria sobre o velho Harry. Ser que eu me lembro de alguma delas?  A mulher voltou a fechar os olhos para reabri-los em seguida:  Uma dessa histrias diz que todo 4 de agosto o velho Harry aparece. Quatro de agosto foi o dia da morte dele.
	Aparece? Onde?  a curiosidade de Suzy era muito grande.

	Dizem que se nesse dia voc acordar bem cedo e ficar olhando para o mar, logo vai ver o velho Harry no meio da gua tentando se salvar. Porm, se algum tenta salv-lo, ele desaparece.
	E o velho Harry era velho mesmo?
	No, minha filha, essa  uma maneira que o povo encontrou para se referir ao pobre marinheiro. Dizem at que era um homem muito bonito. Mas so histrias, lendas...
	Sei...  Suzy olhou preocupada para Harry.
	S tem um detalhe nisso tudo que me deixa intrigada.
	Que detalhe  esse?
	O embornal. Por que resolveram roubar o embornal?  muito estranho... Tudo muito estranho...
	Estranho? Eu acho isso tudo maravilhoso!  Suzy disse eufrica.  Bendito sejam os trabalhos que a sra. O'Connell realiza. Se no fossem por eles...
	O que a senhorita disse?
	Nada. Ela no disse nada de importante. Minha esposa sempre se impressiona com essas histrias fantsticas.
	Obrigada, minha senhora.  Suzy agradeceu.  Adorei as histrias sobre o marinheiro. Vamos para casa, Harry?
	Harry? Voc disse Harry, querida?  A mulher perguntou com um fio de voz e olhava desconfiada para os dois, procurando uma cadeira para sentar-se..  Isso no passa de uma coincidncia, no ?
	Com toda certeza, minha senhora.
Suzy e Harry se acomodaram dentro do carro.
	Voc est com medo de mim?
	Medo? Eu? De voc? De jeito nenhum. Achei tudo muito, muito estranho. Mas devo confessar-lhe que achei tudo tambm muito excitante.
	Eu posso ser um fantasma, querida.
	Fantasma? De jeito nenhum! Voc pode ser tudo, menos um fantasma. Existem coisas no mundo que no d para se explicar. Ento para que ficarmos no preocupando?
	Voc  sensacional.
	Sabe que acho que sou mesmo?  Ela o abraou.
	Wilbur tem razo: serei um grande escritor. Posso at comear a pesquisar todas essas histrias sobre o velho Harry e recont-las  minha maneira.
	Acho a ideia excelente. Estou me sentindo muito feliz, sabia?
	Por qu?
	Por tudo o que nos aconteceu. Ningum no mundo viveu uma histria de amor. to linda.
	Linda  voc, minha doce e querida Suzy Harper...

EPLOGO

Sete anos haviam se passado desde de que Suzy ' encontrara Harry na praia quase morto. Desde ento, para comemorar o aniversrio daquele mgico encontro, Suzy reunia os amigos, na mesma casa que testemunhara o nascimento daquele estranho amor.
	Foi uma excelente ideia comprar essa casa e aument-la, sra. Wilde  Harry deu um beijo no rosto de Suzy.
 Tambm quero um beijo, papai  uma garotinha de quatro anos que estava no colo de Suzy sorriu com meiguice.
	S um beijo, Christine? Vou lhe dar um milho de beijos, querida.
	Um milho  muito. S quero um.
Harry beijou a filha que logo pediu para ir pra o cho e correu para se encontrar com o irmo de cinco anos que brincava na areia.
	Quem diria, hem mulher? Quem diria que iramos ter uma famlia to linda?
Suzy sorriu. Sim, ela era uma mulher muito feliz. Feliz por ter encontrado Harry, feliz por poder contar com a presena de amigos sempre que precisava e feliz por ter se tornado uma artista muito conhecida.
Courtney, que se encontrava na cozinha com seus netos, publicara o seu livro Viagem Atravs do Tempo, uma ano e meio depois de ter deixado a sinopse na casa de Suzy. O livro fizera muito sucesso e agora o cinema estava interessado nele. Harry, aps ter publicado o seu primeiro livro que fora o maior o campeo de vendagem dos ltimos dez anos, publicara um segundo com uma temtica semelhante ao de Courtney que tambm fora um grande campeo de vendas.
Wilbur, feliz com tudo o que acontecia, jamais revelara o segredo de Harry para ningum.
	Sabe que dia  hoje?  Harry perguntou.
	Como eu poderia me esquecer? Hoje faz sete anos que eu o encontrei.
	E voc viu s? No choveu. O tempo est maravilhoso.
	Acho que o fantasma do velho Harry est sossegado.
	Mas posso lhe garantir que ele no encontrou o descanso eterno.
	No?
	No. Ele finalmente encontrou a felicidade eterna.
	Oh, meu querido... Que palavras mais bonitas...
Harry chamou os filhos e, de mos dadas, os quatro foram passear pela praia.

FIM


